quarta-feira, 23 de julho de 2008

ARTIGO - UMA HISTÓRIA AMARGA

Cícero Ferreira de Albuquerque[1]
A cana chegou ao território brasileiro trazida pela expedição de Gonçalo Coelho e serviu perfeitamente à estratégica de colonização portuguesa, pois exigia uma grande quantidade de braços e a ocupação de amplas áreas territoriais. Além disso, o açúcar tinha status de especiaria no mercado europeu. A região Nordeste, desde os primórdios da ocupação, revelou-se detentora de solo e clima propícios para o cultivo da cana. Em 1533, com o nome de engenho do senhor governador, foi fundado, na capitania de São Vicente, o primeiro engenho brasileiro.
Considero esse breve histórico importante para entendermos a centralidade da cana e do açúcar para a colonização e para a formação do Brasil. A sociedade brasileira nasceu pautada pelo latifúndio e pela monocultura. Mas é preciso atualizar o debate. É preciso compreender que além do açúcar, de forma pioneira, o Brasil produz industrialmente, desde os anos 80, o álcool extraído da cana para movimentar expressiva parte de seus veículos.
Hoje, como nunca, devemos realizar um esforço de compreensão da importância da cana para o Brasil e para o mundo. A atual crise de combustíveis pôs a cana no centro do debate. No Brasil, é a partir dela que produzimos o etanol. Estamos diante de um produto que vive um boom no mercado internacional.
As leis de mercado imprimem regras e dinâmicas que atropelam a vida, agridem o meio ambiente e comprometem o futuro da humanidade. Um exemplo disso é a atual realidade de agravamento da fome no mundo. Sabemos que a questão não é simplesmente que está faltando alimentos, eles existem e são mal distribuídos, mas sabemos também que muitas terras do planeta estão submetidas às lógicas do agronegócio e servem à voracidade capitalista.
As profundas mudanças por que passa o setor canavieiro não têm origem no seu interior apenas, mas elas revelam que o setor foi capaz de incorporar as transformações vividas por outros segmentos da economia capitalista para sobreviver e ganhar poder de competitividade no mercado externo e interno.
O universo canavieiro não mudou apenas de engenho para usina, de senhor de engenho para usineiro, de escravo para morador de condição ou de morador de condição para habitante de ponta de rua. Mudaram as relações de trabalho e de dominação. Muitas usinas instalaram linhas de produção similares às implantadas pelas modernas indústrias. O desemprego é outra realidade cruel no setor sucroalcooleiro. Estima-se que mais de 50% dos empregos destinados ao plantio e ao corte da cana desapareceram nas duas últimas décadas.
As usinas vêm utilizando tecnologia de ponta e técnicas de produção cada vez mais aprimoradas. As metas de produção impostas aos trabalhadores são desumanas. As condições de trabalho são precárias. As jornadas de trabalho brutais. Muitos trabalhadores morrem por exaustão. A modernização do processo produtivo em nada combina com as atrasadas relações de trabalho.
Em Alagoas, nos meses de fevereiro e março últimos, a Operação Zumbi dos Palmares, promovida pela Força-Tarefa de Combate às irregularidades Trabalhistas no Setor Sucroalcooleiro, organizada pela Procuradoria Regional do Trabalho, fiscalizou diferentes usinas do Estado e identificou diversas irregularidades. Em todas, os fiscais encontraram situações graves de desrespeito aos direitos trabalhistas mais fundamentais e à dignidade humana. Várias usinas foram multadas, algumas interditadas.
Em conseqüência das condições de exploração, explodiram greves de canavieiros em vários municípios alagoanos. Os motivos eram os mesmos: as péssimas condições de trabalho, falta de equipamentos adequados, os baixos preços praticados pelas usinas pelo corte da cana.
A cana tem efeito devastador e a julgar pelos atuais acontecimentos mundiais os canaviais devem se expandir. Devemos estar atentos para duas conseqüências disso. A primeira é a de que nossa cultura é de produção extensiva, logo, os canaviais devem avançar sobre as matas e sobre áreas destinadas à pequena agricultura, à produção de alimentos. A segunda é que as condições de vida dos canavieiros devem ser agravadas. Apesar das condições serem desfavoráveis, só a organização e a luta dos trabalhadores serão capazes de combater as injustiças que cercam os canaviais brasileiros.

[1] Professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

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