quarta-feira, 23 de julho de 2008

Jornal Caminho da ROÇA - Especial Canavieiros - EDITORIAL

O discurso do Governo não mascara os males causados pela produção do Etanol

O Governo Brasileiro, nos últimos tempos, tem intensificado a defesa e divulgação de seu programa de agrocombustível, a partir do etanol, com o argumento de que seria o método preferencial de redução da poluição causada pela queima dos combustíveis fósseis. Enquanto incentiva euforicamente a produção do monocultivo da cana-de-açúcar - matéria prima do etanol - e enquanto afirma deliberadamente que as plantações não afetam o meio ambiente, não devastam áreas de reservas florestais, o Governo fecha os olhos para as contradições da produção do etanol no país e para todos os males causados pela ganância do modelo de produção do agronegócio, defendidos veementemente pela bancada ruralista. O monocultivo da cana-de-açúcar (que atualmente ocupa uma área de cerca de 6 milhões de hectares) pretende duplicar de tamanho em pouco tempo. Entretanto, a produção e expansão deste monocultivo só se viabilizam com uma grande quantia de recurso público, com um investimento bilionário do Governo Federal, através do BNDES, do Banco do Brasil, da Petrobrás e de outros órgãos governamentais.
No caso de Alagoas, além do financiamento, o governador Téo Vilela ainda perdoou a dívida dos usineiros que somam mais de R$ 1,5 bilhão
[1]. Esta é a segunda vez, em menos de dois anos, que o governo estadual perdoa débitos fiscais bilionários do setor açucareiro. Porém, na medida em que assistimos a expansãol da indústria do etanol, presenciamos também o aumento de seus impactos negativos.
O etanol é combustível “limpo” apenas do cano de escape dos carros para fora, pois o chamado "agrocombustível" é produzido a um altíssimo custo social e ambiental. Para cada litro de etanol produzido nas usinas, são gerados 12 litros de vinhoto - substância tóxica que destrói a biodiversidade e que é despejada nos rios contaminando todos os cursos de água da região.
Só em Pernambuco, foram autuadas, há algumas semanas, todas as 24 usinas no estado, por cometerem crimes ambientais. Recai, inclusive, sobre essas usinas a responsabilidade por comprometer a Mata Atlântica remanescente no estado, que é de apenas 2,7%. As Usinas de Alagoas passarão por um processo de fiscalização efetiva que denuncie os danos causados ao meio ambiente e a super-exploração dos trabalhadores?
Como se não bastasse a degradação do meio ambiente, o modelo de produção dos agrocombustíveis se sustenta, ainda, na exploração dos trabalhadores rurais. Além da situação degradante e muitas vezes análoga a de escravidão a qual estão submetidos os trabalhadores rurais no corte da cana, a expansão deste monocultivo está tomando o lugar da agricultura camponesa, trazendo como uma das conseqüências a alta dos preços dos alimentos, que atinge principalmente a classe trabalhadora.
Esse problema é encarado pelo Governo brasileiro como um fator conseqüente do desenvolvimento e do aumento da capacidade de consumo. O que o Governo não admite é que a crise dos alimentos está diretamente relacionada à falta de investimento na agricultura camponesa e ao incentivo e destinação de milhares de hectares de terra para o plantio da cana-de-açúcar. Enquanto a crise de alimentos levou muitos países a rever suas políticas de incentivo aos agrocombustíveis, o Brasil, na contramão das necessidades de seu povo, lança uma ofensiva para promover o etanol no mundo, desconsiderando todos os males causados pelo modelo do agronegócio e da expansão do monocultivo da cana, à custa do sangue e suor de milhares de trabalhadores rurais.

[1] Jornal Extra Online, 11 de julho de 2008. http://www.extralagoas.com.br/noticia.kmf?noticia=7504349&canal=333

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