quarta-feira, 23 de julho de 2008

SEMENTE GERMINADA – Espaço do/a Trabalhador/a

Cícero Juvenal da Silva, o “Doda”, fala da sua experiência como canavieiro. Doda passou mais de 10 anos trabalhando no corte da cana-de-açúcar e só parou quando ingressou na luta por terra e dignidade.

Como era o trabalho no corte da cana-de-açúcar?
O trabalho no corte da cana é uma situação de miséria, porque os fazendeiros pagam um preço muito pequeno em cada tonelada cortada. E, além disso, tem os empreiteiros, que trabalham com os fazendeiros e quando entregam a travessia para o trabalhador só querem pagar a metade do preço, então sobra muito pouco para o trabalhador, é cada vez mais difícil, o “cara” não ganha nada. Isso quando a pessoa tem a sorte de não pegar o trabalho escravo. Porque o “gato”, que são os empreiteiros, às vezes pega os trabalhadores e leva para trabalhar fora, em outras usinas. Quando [os trabalhadores] chegam lá, [os empreiteiros] prometem uma coisa boa que não tem. O “cara” vai trabalhar só com o milho e a palha.
Você já fez trabalho clandestino?
Praticamente. Não foi um trabalho escravo, mas eu saí de Murici e fui para a Bahia para uma usina chamada Santa Cruz, depois de passar lá alguns dias, trabalhei 5 meses sem receber.
O senhor considera que já foi um escravo?
Exato. Se eu passei cinco meses sem receber o salário. Meus filhos ficaram aqui vivendo a pão e água.
Como você se libertou e conheceu a luta pela Reforma Agrária?
O pessoal da CPT passou fazendo trabalho de base e eu me engajei na luta também. Conheci a CPT na fazenda de Olavo Calheiros, em Murici, na usina Bititinga.
O que mudou na sua vida depois do ingresso na luta?
Depois da entrada na luta mudou tudo. Mudou a questão do trabalho, porque eu saía de casa em média de quatro horas da manhã para cortar cana – isso quando eu encontrava trabalho, porque são 4 a 6 meses de moagem e, quando não tinha moagem, era preciso fazer vassoura, estreira, caçar – que eu considerava um crime, mas tinha que caçar, matar os animais silvestres para vender e poder sobreviver – isso aconteceu muito comigo. Com cinco meninos para dar sustento, era o que eu podia fazer.
Que mensagem você daria para os cortadores de cana?
A mensagem que eu tenho a dar é que eles deveriam se engajar na luta pela Reforma Agrária, que é o caminho para melhorar, como eu melhorei. Porque quando a gente planta nossa própria alimentação, mesmo quando não vende, tem a sua própria sobrevivência. Hoje mesmo, estava chovendo muito e eu amanheci doente, por isso não fui vender meus produtos na Feira Camponesa, falei para Marineide [companheira do entrevistado]: 'se você quiser ir vá, mas se não quiser não tem problema'. Na questão da cana, se você não for é colocado pra fora, se ficar doente e não levar o atestado médico a firma já não paga o dia e ainda desconta o que ele ganhou no dia anterior. Teve época que eu trabalhei, perdi um dia, pagava a alimentação, o alojamento. Um dia só que eu perdia valia três. Aqui só passa fome quem não quer trabalhar. Quem pensa que o governo é pai, então não planta. Mas se plantar, não passa fome.

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