quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Jornal Caminho da ROÇA – out/nov/dez 2008

EDITORIAL


Adeus ano do agrocombustível,
Feliz Reforma Agrária!

O ano de 2008 foi marcado no cenário nacional e internacional como o ano de propagação do combustível “limpo” e renovável, o ano que o presidente Lula, chamou os usineiros de heróis e colocou a mala em baixo do braço pra vender ao mundo que não há outro caminho pra resolver a “crise energética” que não passe pela produção de etanol e que o Brasil está disposto a resolver o problema energético dos países do norte... “Aqui temos terra, mão de obra e um clima favorável”, dizia o presidente aos quatro cantos do mundo. “E a Amazônia? Não se preocupem, não vai ser devastada pra produção de etanol, isto é conversa de ONGs, Movimentos Sociais e Ministérios Públicos. Gente que não enxerga o futuro. O meu governo tem respeitado o meio ambiente”. Para qualquer questionamento, o presidente estava preparado para defender os interesses dos usineiros brasileiros.
Enquanto isto no Brasil real, o grupo móvel, ligado ao Ministério do Trabalho, autuava trabalho escravo na cana de açúcar no estado do Pará (Amazonas), libertando 1.108 trabalhadores em condições análogas a escravidão, numa fazenda da empresa Pagrisa (Pará Pastoril e Agrícola S/A), em Ulianópolis; Uma ação do IBAMA em Pernambuco multou as 24 usinas por desrespeito as leis ambientais, aplicando uma multa total de 120 milhões de reais; em Alagoas, 16 usinas foram autuadas pelo grupo móvel e foram libertos 650 trabalhadores, sendo 400 destes na usina Santa Clotilde. O Caderno de Conflitos da CPT de 2007, lançado em abril de 2008, registrou 5.974 libertados, sendo 52% assalariados da cana. Em 2008 o trabalho escravo resistiu, os dados mais recentes apontam 4.418 libertos.
O propagado combustível limpo - o qual não sobrevive sem a ajuda “generosa” do Estado - é resultado da devastação da mata atlântica, do uso histórico da mão-de-obra escrava e da super exploração de trabalhadores. Bastou a crise do capital financeiro para a velha turma se articular para tirar mais dinheiro público.
Alagoas, com seu extenso canavial, comprova que a exploração do uso da terra para produção de cana-de-açúcar só trouxe prejuízo à população: a terra e a renda foram concentradas. A miséria é a face deste modelo de desenvolvimento, isto é demonstrado através dos Índices de Desenvolvimento Humanos e econômicos.
A crise é do modelo capitalista, aliás, é uma crise global profunda. Não podemos abrir mão da nossa soberania alimentar para continuar alimentando um sistema que está esgotando o planeta. É preciso rever o modelo e buscar alternativas que garanta autonomia energética e soberania alimentar aos povos.
Em 2009, vamos fazer novas lutas e trazer a reforma agrária para pauta da sociedade, vamos buscar unidade nos movimentos sociais do campo e da cidade, denunciar as atrocidades produzidas nos canaviais e construir um Brasil justo, fraterno e soberano.


TERRA MÃE:

Cultivar, Cuidar, Partilhar!



No final da década de 90, atendendo ao chamado das famílias camponesas sem terra, a CPT modificou a sua atuação no campo e inclinou para luta direta contra o latifúndio improdutivo em Alagoas, iniciando pela mata norte com a ocupação do imóvel Flor do Bosque no município de Messias. Aos pouco a luta foi se alastrando para a região do sertão e litoral, atualmente a CPT acompanha áreas de posseiros (2), acampamentos (23) e assentamentos (13), totalizando 38 grupos espalhados por 21 municípios.

    Da luta pela terra surgiram os assentamentos da reforma agrária - na sua maioria em locais de difícil acesso e sem água potável – e o desafio de contrariar a "lógica" da monocultura da cana e produzir alimentos.

    Refletindo a realidade das famílias nasceu a necessidade de criar um corpo técnico para assistir aos camponeses. Uma equipe capacitada profissionalmente, que entendesse o processo histórico da luta em defesa da reforma agrária e que tivesse a mística de cultivar e cuidar da terra. A missão é orientar os camponeses e camponesas numa produção agroecologica, em harmonia com a natureza e que leve dignidade para as famílias assentadas e acampadas, respeitando os conhecimentos dos agricultores.

Foi assim que germinou a "Terra Mãe", equipe técnica composta por duas agrônomas, um biólogo e cinco técnicos agrícolas. E o lema escolhido foi: Cultivar, Cuidar, Partilhar.


9ª Feira Camponesa foi a maior organizada pela CPT/AL

Mais de 260 toneladas de produtos foram comercializadas


    A equipe da Terra Mãe – assistência técnica aos camponeses e camponesas – formada por engenheira agrônoma e técnicos agrícolas, fez o levantamento dos dados da 9ª Feira Camponesa, que aconteceu entre os dias 14 e 17 de outubro de 2008.

    Com base no cadastro dos feirantes e de seus produtos, a equipe contabilizou mais de 260 (duzentos e sessenta) toneladas de produtos. Vale ressaltar que este não é o número exato de produtos comercializados, a quantidade de alimentos vendidos é superior a esta. "Os dados apurados não são exatos, pois chegaram alguns caminhões após o levantamento e o cadastro dos feirantes foi feito no primeiro dia do evento", disse a engenheira agrônoma da CPT, Heloísa Amaral.

    Levando em consideração os dados, fica claro o crescimento das Feiras Camponesas e também da produção dos sem-terra acompanhados pela CPT. Na edição anterior, foram comercializadas 206 toneladas de alimentos, a 9ª edição comercializou 50 toneladas a mais. Foram tantos feirantes que faltaram barracas. A organização, que esperava 130 feirantes, contabilizou mais de 180.

    Muito além do escoamento de alimentos produzidos por sem-terra, as Feiras refletem a viabilidade da Reforma Agrária e a necessidade de que os governos a levem a sério. Elas foram conquistadas pelos trabalhadores rurais através de manifestos muitas vezes mal interpretados pela população em geral. Para que tivessem o apoio dos Governos Federal e Estadual foram necessárias grandes mobilizações. E, se preciso, novas mobilizações serão realizadas para manter e expandir o apoio.

    As dificuldades enfrentadas pelo homem e pela mulher do campo são muitas. Sem o devido apoio dos governos, eles produzem em condições de trabalho arcaicas. Faltam instrumentos de trabalho modernos que possam diminuir a degradante mão-de-obra na relação dos camponeses com a terra, irrigação, estradas para levar os alimentos às cidades e para que os trabalhadores tenham acesso à educação e serviços de saúde.

    A CPT considera que ainda é preciso mais infra-estrutura, padronização e organização do evento e também a capacitação dos feirantes. Para o coordenador estadual, Carlos Lima, "Não basta desapropriar a terra que não cumpre sua função social, é preciso viabilizar a assistência técnica e infra-estrutura para que os camponeses tenham melhores condições de trabalho e vida".


21ª ROMARIA DA TERRA E DAS ÁGUAS DE ALAGOAS

5 mil pessoas do campo e da cidade do Estado caminham de Flexeiras ao Assentamento Flor do Bosque, em Messias


    Trabalhadores da cidade e do campo, assentados e acampados e religiosos reuniram-se para refletir e celebrar na 21ª Romaria da Terra e das Águas de Alagoas. A lua cheia iluminou os passos dos 5 mil peregrinos e peregrinas que percorreram 13km até o assentamento Flor do Bosque, no município de Messias.

    Antes da caminhada, às 20h, houve a exibição do Filme da "Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade de Terra: em defesa da reforma agrária e da soberania territorial e alimentar". A programação contou com momento cultural, com o show do missionário baiano Manoel de Jesus e apresentação do Balé Popular do município de Flexeiras – local de onde partiu a caminhada. Em seguida, houve a celebração presidida pelo Arcebispo Metropolitano de Maceió, Dom Antônio Muniz. As bandas das Paróquias de Flexeiras e Joaquim Gomes e Manoel de Jesus animaram a 21ª Romaria da Terra e das Águas com os cantos da terra.

    Chegando ao assentamento Flor do Bosque, o público foi recepcionado com faixas e cartazes das famílias assentadas, desejando as boas-vindas e contando um pouco da história da ocupação à conquista da terra. Um "museu" com artefatos dos 10 anos de luta e resistência foi montado na Escola Camponesa Irmgard Margaretha George (Irmã Rita).

    Ao final, um café da manhã camponês foi partilhado para acabar com o cansaço daqueles que viraram a noite caminhando. Beijus feitos na Casa de Farinha do assentamento, arroz doce e café foram servidos para todos.

    A 21ª Romaria da Terra e das Águas foi organizada pela Comissão Pastoral da Terra e as Comunidades Eclesiais de Base (CEB's), teve o apoio da Arquidiocese, da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e das Paróquias de São Benedito (Flexeiras) e São Sebastião (Messias).


FLOR DO BOSQUE:

10 anos de luta e resistência

Assentados comemoram aniversário da ocupação


O povo do assentamento Flor do Bosque - localizado no município de Messias, zona da mata de Alagoas – celebrou, no dia 27 de novembro de 2008, 10 anos da ocupação da fazenda. A terra, ocupada em 1998, foi destinada aos sem-terra 8 anos depois.

Às 4h da manhã fogos anunciavam o aniversário da ocupação da área. A celebração iniciou com uma caminhada que fez o percurso desde o primeiro acampamento à terra conquistada. Nas paradas, os assentados e assentadas relembravam a história do Bosque.

     Chegando ao assentamento, houve uma celebração presidida pelo Pe. Alexander Cauchi que, segundo os trabalhadores, teve um papel fundamental na construção dessa história. Quando a celebração encerrou, foi partilhado o almoço. À tarde foi de muita alegria, com churrasco e música.

    A confraternização aconteceu o dia inteiro, teve a presença de pessoas que apoiaram e fortaleceram a luta do Bosque como as irmãs Rita, Daniela, Teresa, Celine, Carmem Lúcia; Josival Oliveira, do Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST); Major Antônio Casado, do Centro de Gerenciamento de Crise da PM; Lenilda Lima, vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e; a senhora Maria José Viana. O apoio intenacional também foi marcado pela presença de Maria, da Associação Amigos de Joaquim Gomes, da Itália e pela mensagem e fotos do Comitê de Erradicação da Pobreza, do Canadá.

    Emocionado, o assentado Del desabafou: "Nós sofremos pelo objetivo que a gente queria. Não vamos destruir o que ganhamos com tanto sofrimento. Temos que valorizar nossa luta, porque nós tivemos coragem de lutar por isso que nós temos hoje. 10 anos de sofrimento e agora estamos dentro da terra que conquistamos".


IMPUNIDADE

Movimentos Sociais relembram assassinato de liderança em Atalaia


    O sem-terra Jaelson Melquíades dos Santos, 25 anos, uma das principais lideranças do MST no município de Atalaia em 2005, foi morto com 5 tiros na cabeça na estrada de acesso ao assentamento Timbozinho, onde morava com a mãe e a mulher.

    De acordo com o Incra, a área onde o agricultor foi assassinado não era ainda um assentamento e estaria em processo de desapropriação. Na época, o Incra confirmou que a terra era um dos focos de conflito agrário no Estado.

    Até hoje o crime está impune. O executor, Heleno Pedro da Silva está foragido e é procurado, não apenas no Brasil, mas também pela Polícia Internacional (Interpol). Mas os mandantes continuam livres em Alagoas.

    No dia 29 de novembro de 2008, os movimentos do campo realizaram uma marcha para denunciar os 3 anos do assassinato.



Manifestações acompanhadas pela CPT em 2008




    Atos contra a corrupção na Assembléia Legislativa de Alagoas, Jejum por Justiça e Pão, ato contra a grilagem de terra e as fraudes feitas no Cartório de Murici, fechamentos de rodovias AL e BR, grito dos excluídos, ocupações de prefeituras – a exemplo de São Miguel dos Milagres e Belo Monte –, mobilizações na capital e no interior do Estado. No total foram cerca de 10 manifestações das mais variadas formas. Destas, 5 aconteceram em Maceió.

    Em maio, trabalhadores/as acamparam na cidade reivindicando infra-estrutura nos assentamentos, sementes, agilização de licenças ambientais entre outras questões que envolvem o acesso aos direitos humanos. Como desdobramento dessa mobilização, os camponeses retornaram com reforços em novembro. Aproximadamente 800 pessoas acamparam na Praça dos Martírios para discutir com os Governos as pendências da mobilização ocorrida no mês de maio.

    Os trabalhadores rurais chegaram à Maceió na terça-feira, 25/11. Na tarde do dia seguinte, o Governo Estadual resolveu atender a solicitação de reunião feita pela CPT com 15 dias de antecedência. Entre os 21 pontos de pauta, estava a construção de Casas de Farinha, água potável, apoio às feiras camponesas, liberação dos kits do Projeto Quintal Produtivo, energia elétrica nos assentamentos e estradas.

    Mais uma vez, o Governo se comprometeu em atender todas as reivindicações. Durante o acampamento na cidade, os sem-terra também se reuniram com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e com a Companhia de Energia Elétrica de Alagoas (Ceal), onde também firmaram acordos.


Irmã Nazarena fala dos anos acompanhando a luta dos oprimidos

Ir. Lúcia Nazarena Missio está na vida religiosa desde 1946. Trabalhou como professora em Colégios no Rio Grande do Sul – sua terra natal – durante 20 anos. Ela chegou a Alagoas na década de 1970, quando o Arcebispo da época, Dom Adelmo Machado, convidou a Congregação Sagrado Coração de Jesus para a missão de evangelizar o povo da área norte do Estado. Na década de 1990, a religiosa foi para Bahia. Depois, retornou à Maceió.


Como a senhora se interessou pela causa dos pobres, dos oprimidos?

Sempre tive muito carinho pelos negros. Quando percebi que Deus me chamava para a vida religiosa, a primeira coisa que eu falei para meus superiores era que eu queria ser missionária na África. Depois, quando foi aceita a missão aqui no nordeste, mandaram uma lista para as irmãs que queriam se inscrever pra essa vida missionária. Eu sempre quis ser missionária para trabalhar na base, então vim para o nordeste.

Quantas missionárias vieram para Maceió? Foram essas irmãs que fundaram a Congregação na cidade?

Nós chegamos em 4 missionárias em Alagoas, para começar a evangelizarão na área norte. Mas depois teve toda uma divulgação, chegaram outras irmãs, já são 38 anos. Hoje já somos província no nordeste.

Como iniciou a missão com os oprimidos?

Começamos a missão na área norte. Mas a gente tinha muito contato aqui em Maceió porque nós assumimos também a orientação interna do Concílio de Cristandade, então iniciamos o trabalho com a periferia.

Qual era o público?

Nós começamos com as mulheres que faziam o Concílio de Cristandade. Colaborávamos com a espiritualidade, isso inclui retiros, encontros etc. E a gente fez com que a palavra de Deus se voltasse para a realidade de Maceió, já que na periferia não tinha um trabalho como esse. A história é muito comprida, mas começou assim, aos poucos atingindo a base, preparando agentes missionários.

Como se aproximou da luta do povo do campo?

Na Bahia, nós assumimos a missão de Tanquinho, que fica a 40km de Feira de Santana. Ali tinha Padres missionários italianos que trabalharam no campo, com a Pastoral Rural. Lá havia problemas sérios, então nos associamos à Pastoral da cidade de Paulo Afonso para fazer todas as reivindicações juntos aos trabalhadores rurais. Era luta de reforma agrária, de ocupação de terras que os fazendeiros não deixavam plantar. Depois nós assumimos uma missão em Canudos, aí é outra história linda.

Como era o trabalho em Canudos?

Trabalhávamos naquela questão da seca, com problemas sérios de falta de água. Foi um trabalho de base belíssimo. Fazíamos trabalhos de evangelização e projetos, construção de cisternas, luta para que o povo tivesse recursos para viver dignamente.

Como a senhora enxerga a CPT?

Eu vejo a CPT como algo muito bom. Minha opinião é que é muito importante e atuante em Alagoas. A CPT é uma Pastoral, então é a palavra de Deus que deve ser vivida nos grupos. A CPT é aquela semente de transformação porque a palavra de Deus deve ser vida para eles.

Em sua opinião, como a CPT deve atuar?

A CPT deve dar a força para a luta, estimular o protagonismo. Mas para ser protagonista é preciso desenvolver valores nas pessoas.

Hoje, que a senhora mora no Recanto Sagrado Coração de Jesus, qual seu trabalho?

Fazem dois anos que estou aqui, mas eu vim aqui por causa da minha saúde. Aqui eu trabalho na Pastoral da Sobriedade, e agora estamos com a Pastoral da Família, atingindo a terceira idade. Já estamos há 2 anos preparando as articuladoras, porque através dos idosos nós chegamos à família, principalmente àquelas que têm problemas com as drogas.A Pastoral da pessoa idosa estudou os valores da pessoa humana. Quais valores? Todos. Os valores espirituais, sociais, religiosos, psicológicos. Com isso estamos contribuindo para que haja mais vida na sociedade, para que haja menos violência.



FELIZ NATAL E ANO NOVO!


Meus queridos irmãos e irmãs,

Me dá muita alegria estar um pouquinho com vocès para desejar-lhes um feliz Natal e Ano Novo de 2009! Queria que não faltasse entre nós o principal da festa: Jesus. Cabe a nós cristãos manifestar a presença deste Menino Salvador num mundo que o ignora completamente em favor de um velho Papai Noel já caduco e inúmeras ofertas vazias que o mundo do consumismo nos faz! A vida da gente não precisa destas coisas: precisa é encontrar o verdadeiro sentido da vida, a Estrela que nos orienta, que nos dá coragem e alegria profunda na peregrinação sofrida deste mundo. Precisa lembrar que nesta lapinha deitou o Verbo de Deus, a Palavra da Verdade, a única que pode salvar o mundo, se a aceitarmos e se soubermos reconhecê-la em todo pobre que 'não achou lugar nas hospedarias' da nossa sociedade: que pelo menos a encontre no seio da nossa família!    

    

São os votos e o abraço do Pe. Luis Canal (Um dos fundadores da CPT/AL, de Beluno - Itália

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