terça-feira, 17 de março de 2009

"Temos em Alagoas 41 assassinatos de trabalhadores rurais", contabiliza CPT


Entidade ligada à Igreja Católica, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) comemora, em 2009, 25 anos de existências em Alagoas. Fundada por padres italianos nas cidades de Novo Lino e Colônia Leopoldina, a CPT surgiu para ajudar na luta dos canavieiros pelos seus direitos, passados 25 anos a entidade volta agora sua atenção para os camponeses ligados a movimentos que lutam pela reforma agrária.

Em entrevista ao Alagoas em Tempo, Carlos Lima, coordenador estadual da CPT, fala sobre os avanços conquistados pelos trabalhadores, os planos e o que poderia ter sido feito nesses 25 anos, mas que não foi concretizado. Lima reforçou que há um desejo das elites de criminalizar os movimentos dos camponeses.


Alagoas em TempoA Comissão Pastoral da Terra completa 25 anos em Alagoas em 2009, como se deu a sua fundação no estado?

Carlos LimaEsse ano, nós comemoramos 25 anos em Alagoas, a Comissão Pastoral da Terra foi fundada há 33 anos no Brasil. No estado surgiu em 1984, basicamente no trabalho com os canavieiros nas paróquias de Novo Lino e Colônia Leopoldina, que tinha dois padres italianos que tocaram esse trabalho e também em União dos Palmares. Era um momento muito difícil, se hoje os canavieiros têm pouco direito, imagine naquela época, que quando se ia fazer uma reclamação trabalhista poderia aparecer morto, pois a violência era constante. Também tinha a questão da pistolagem, muito presente principalmente nas regiões de Novo Lino e Colônia, tanto é que os fundadores da CPT em Alagoas tiveram que sair do estado.


ATNesses 25 anos de existência de que modo a CPT conseguiu exercer sua função?
CL Do ponto de vista da organização, a CPT contribuiu para a sociedade e fundou, junto com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), uma escola de formação sindical, para dar assessoria aos trabalhadores, para que eles pudessem formar sindicatos e terem condições de cobrar do patronato. A CPT contribui para essa formação e em alguns lugares até conseguiu fazer diretores de sindicatos. Há também o Fórum Permanente contra a violência. Com a crise do setor sucroalcoleiro, em 1996, a CPT mudou um pouco o seu público dos canavieiros para os sem-terra. E hoje, nós acompanhamos diretamente cerca de duas mil famílias, incluindo os sem-terra e os assentados e os pequenos produtores. Isso sem contar assentamentos antigos do MST.


ATSerão feitas comemorações para celebrar os 25 anos da CPT em Alagoas?

CLEsse ano será um ano celebrativo. O primeiro momento foi na Assembléia Legislativa, tivemos o testemunho de pessoas da CPT, depoimento de trabalhadores, foi um momento muito importante. Na Feira Camponesa, em julho, a gente vai ter esse momento de celebrar também. Pretendemos fazer celebrações em alguns municípios, como Colônia, União dos Palmares e isso acontecerá no segundo semestre. E fechando a celebração a gente vai fazer uma romaria da terra, já é a 22ª, em Maceió. Pela primeira vez iremos fazer na capital.


ATVocê acha que a CPT ajudou a sociedade a se aproximar dos movimentos dos trabalhadores rurais?

CLA gente cumpre um papel diferente. Por sermos uma entidade ligada à Igreja, a gente tem outro papel, mas conseguimos fazer nos últimos anos algumas atividades para integração, marchas, formação política e romarias. A gente tem essa função de diálogo. Por sermos uma pastoral não temos a intenção de fazer disputa, nada disso, queremos fortalecer a organização dos camponeses.


ATVocê acredita que há muita resistência da sociedade em aceitar os movimentos sociais ligados à luta pela reforma agrária?

CLTem um projeto das elites brasileiras e alagoanas para criminalizar os movimentos. Se pegarmos a historia, vamos ver que os trabalhadores é que foram vítimas, e não foram os fazendeiros. Temos em Alagoas, 41 assassinatos de trabalhadores rurais.


ATEsses casos foram solucionados e os culpados presos?

CLNinguém foi preso por matar camponês. Historicamente a violência é contra o trabalhador. É claro que, enquanto Pastoral e pessoas que acreditam no evangelho, nós não defendemos a morte. Agora, tanto a Legislação Brasileira quanto a Igreja dizem que em legítima defesa você pode fazer isso, mas claro que isso tem que ser avaliado. Voltando à questão da criminalização, quando você pega um ato isolado de violência e generaliza isso é uma tentativa de colocar a sociedade contra os trabalhadores do campo. Muita gente ainda não aceita que um camponês possa ter um pedaço de terra.


AT – Essa tentativa de criminalizar é muita sentida em Alagoas?

CLSim e uma prova disso é o que ocorreu em Água Branca, a imprensa mostrou que havia desmatamento em um acampamento do MST, mas no local há licença ambiental, a área de onde foi retirada a vegetação serão construídas casas. O trabalhador que foi preso não é do assentamento. Em agosto do ano passado, nós fizemos uma denúncia de desmatamento, mas nada foi feito. São dois tratamentos, já que muita gente não aceita que o camponês possa ter uma relação com a terra sem explorar ninguém.


AT – Vocês participaram da sessão popular na Assembléia, no dia 17 de fevereiro, contra a volta dos deputados indiciados pela Polícia Federal na Operação Taturana. Como avalia o movimento?

CLO mais importante é que o ato teve a cara da sociedade. O movimento mostrou a indignação do povo contra políticos eleitos com compra de voto, com pressão psicológica. A operação da Polícia só mostrou o que muita gente sabia. O ato foi para mostrar que estávamos insatisfeitos com a conduta dos parlamentares.


AT – Nesses 25 anos, o que acha que poderia ter sido feito, mas não foi realizado pela CPT?

CLNós nos definimos como um serviço à causa dos pobres dos campos, então nós teríamos que ajudar a todos os camponeses. Do ponto de vista humano isso é impossível, já que temos um campo amplo. Em alguns momentos, eu acho que a CPT não conseguiu fazer o papel de conciliadora, de avançar na luta dos camponeses. Mas, eu acredito que a gente, como tudo na vida, é santo e pecador, e a CPT sempre tentou levar para os trabalhadores a importância de que é produzir sempre respeitando. Tentamos e em alguns momentos, talvez não tivemos a coragem suficiente de pressão. O sonho dos trabalhadores é que haja reforma agrária em Alagoas e que haja democratização da terra e, se isso ainda não aconteceu, é um pecado social.


Fonte: jornal Alagoas em tempo - 16 a 22 de março de 2009 / Jornalista Teresa Cristina

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