quarta-feira, 22 de abril de 2009

Dorothy é 'santa brasileira', diz irmão

David Stang acompanha de perto julgamentos pela morte da missionária. Em entrevista, ele conta como soube que sua irmã corria risco de morte


Dennis Barbosa e Iberê Thenório
Do Globo Amazônia, em São Paulo


Ex-missionário católico na África e hoje residente nos EUA, David Stang visita o Brasil com regularidade para pedir justiça pela morte de sua irmã Dorothy, missionária assassinada em 2005 em Anapu, no Pará.

Dorothy foi morta com seis tiros. Ela lutava pela implantação de um Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), um tipo de assentamento de reforma agrária que causa menos impacto ao meio ambiente.

Natural do estado de Ohio, a missionária viveu três décadas no Brasil e se naturalizou brasileira.

Dos Estados Unidos, por telefone, David Stang falou ao Globo Amazônia sobre o impacto que sofreu ao saber que sua irmã corria risco de morte e sobre o documentário "Mataram Irmã Dorothy", que está em cartaz desde sexta-feira (17) nos cinemas brasileiros, e mostra os julgamentos dos acusados pelo assassinato.


Sua vinda ao Brasil depois que Dorothy foi assassinada foi a primeira?

Não. Estive no Brasil em 1996 e em 2004, quando minha irmã ganhou um prêmio de direitos humanos.


E sabia em que tipo de disputas ela estava se envolvendo no Brasil?

Sabia da maioria das coisas. Mas não tinha me dado conta de quão importante ela era. Outra coisa que me surpreendeu é que tinham colocado um preço pela sua cabeça. Foi quando percebi que há duas correntes de poder no estado do Pará: [de um lado] o governo, e [do outro lado] os grileiros, madeireiros ilegais e pistoleiros. E minha irmã vivia no meio deste tumulto.


Então foi um choque descobrir a realidade em que Dorothy vivia?

Já havia sido missionário na África por dez anos. Sabia que o mundo é mais complicado do que nós norte-americanos pensamos.


O que viu na África pode ser comparado à realidade que conheceu no Brasil?

Sim, na dificuldade do governo em proteger as pessoas, de governar.

No documentário ‘Mataram Irmã Dorothy’ há um momento em que a defesa dos acusados de matá-la argumenta que, por ser norte-americana, Dorothy tem o DNA da violência. Como reagiu a esta acusação?

Fiquei indignado. Percebi que temos um governo, especialmente sob [George W.] Bush, que nos envergonha, assim como muitos brasileiros às vezes ficam envergonhados com seu governo. Bush foi embaraçoso para nós.
Então, para esta mulher de 73 anos, que era considerada santa pelas pessoas, que era considerada profissional pelo governo, ser insultada, e ser chamada de americana quando na realidade era brasileira... Ela tinha cidadania brasileira. Que o juiz permitisse aquilo... Fiquei envergonhado e com raiva.

Esta mulher era considerada extremamente profissional. Quando foi assassinada, o presidente brasileiro a comparou a Chico Mendes.


No fim das contas, o senhor também se tornou um personagem importante nessa história, por acompanhar os julgamentos e apoiar as pessoas que estavam ao lado de sua irmã. Pode-se dizer que assumiu a luta de irmã Dorothy?

Quando estive no Brasil em 2004, Dorothy tinha o sentimento de que teria problemas com esses bandidos. Ela sabia que essa gente era perigosa. Em dezembro, as pessoas vinham para ela e diziam que haviam colocado um preço pela sua cabeça e que tentariam matá-la. Fiquei chocado com aquilo.

Ela disse: ‘Quero que jamais esqueça o que estou fazendo. Conte às pessoas nos EUA o que fiz’. Então sinto quase como uma promessa sagrada dizer às pessoas que grande mulher foi esta brasileira. Ela é verdadeiramente uma santa brasileira. E uma mãe brasileira. Dorothy amava o Brasil e seu povo. Os brasileiros têm uma grande mulher representando-os.

Estive no Brasil dez vezes desde seu assassinato. Fico honrado em estar com os brasileiros. Há vários brasileiros que amam Dorothy e fico honrado em estar com eles.


Ainda há esperança para a luta de Dorothy?

Bem, Bida (Vitalmiro Bastos de Moura, acusado de ser um dos mandantes do assassinato de Dorothy) está de novo na cadeia. E Regivaldo (Regivaldo Galvão, também acusado pela morte) esteve preso e acho que o será novamente. Os brasileiros estão vendo uma grande batalha sendo travada diante de si e estão torcendo para a Dorothy.

Com o documentário sobre sua irmã nos cinemas, o debate a respeito deste caso deve crescer novamente...

Debate sempre é ótimo. Vamos mostrar os dois lados. Estamos vendo a destruição da Amazônia. Não acho que o Brasil queira ver sua Amazônia destruída. Mas esse sistema econômico ilegal é muito poderoso. O governo brasileiro precisa resistir.

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