segunda-feira, 1 de junho de 2009

Assentados entregam carta ao Governador


No sábado (30.05) ocorreu a solenidade de instalação da casa de farinha no assentamento Jubileu 2000 localizado no município de São Miguel dos Milagres, litoral norte de Alagoas. Na ocasião, foi entregue uma carta para o Governador Teotonio Vilela Filho.

O documento foi assinado por Cícero Antônio da Silva, presidente da Associação do Programa de Assentamento Jubileu 2000 (foto), e conta a trajetória do assentamento e dificuldades enfrentadas pelas 41 famílias camponesas residentes e que são acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT-AL).

Veja o conteúdo na íntegra.



Excelentíssimo Governador Teotonio Vilela Filho,



Hoje é dia de festa, dia de tomar uma, de fazer farinha na casa nova, de conversar e de contar prosa. Estamos felizes com a presença do senhor e sua equipe em nossa comunidade. Quem diria um governador no nosso Jubileu! Enfim, seja bem vindo.

Governador antes de colocar a farinha no forno gostaria de contar como foi a nossa luta aqui no assentamento Jubileu 2000. Nossa trajetória começou na madrugada do dia 26 de novembro de 1999, quando ocupamos este imóvel, que na época era chamado fazenda Engenho. Tínhamos 99 famílias sem terra, sem casa e sem destino e no raiar daquele dia vimos surgir na aurora a esperança em ter um pedaço de terra.

A luta aqui foi grande governador, brigamos contra o dono da terra que não queria permitir o nosso sonho acontecer. Também contra o INCRA que demorou para conceder a desapropriação da fazenda, inclusive, neste período sofremos quatro despejos. Brigamos contra o juiz Rivoldo Sarmento que tentou nos intimidar prendendo cinco (5) companheiros, porém, com essa ação conquistamos mais força para lutar e o tempo mostrou quem deveria ser preso. Brigamos com os fazendeiros ao redor, teve um que queria avançar a cerca e tomar um pedaço da nossa terra, fomos lá e colocamos a cerca de volta no lugar. Também teve outro que deixava o gado solto e as crianças corriam com medo.

Discutimos também com a prefeitura que transportava nossas crianças para as escolas no mesmo caminhão que era usado para recolher o lixo da cidade. Aí foi uma briga bonita, pois a juventude forte queria um ônibus e a prefeitura mandou um caindo aos pedaços, logicamente, a revolta continuou. Os meninos secaram os pneus e exigiram um transporte digno, como diz a lei. Agora vem um microônibus novo, ainda vai gente em pé, mas não tem cheiro de lixo e tem piso. Eita ia esquecendo, quando chegamos aqui a gente não podia ter dor de dente, o posto não atendia sem terra, e novamente brigamos... já pensou ficar a noite toda com o dente doendo? Como o senhor está vendo somos um povo briguento.

Nossa briga governador é para gente fazer desse local, desse assentamento, uma morada digna. Onde todas as famílias camponesas possam ter educação, água potável e assistência técnica, enfim, pena que o senhor veio voando e não pode sentir como sofremos com a nossa estrada. Dizem que chegou dinheiro na prefeitura para resolver os problemas do acesso, mas até hoje esperamos, por conta dela fica difícil um socorro e transportar nossa mercadoria.

Aos poucos as coisas vão se ajeitando por aqui, chegou água nas torneiras, energia nas casas – a gente só não pode ligar as televisões ao mesmo tempo, porque cai a energia. Agora, nossa luta é com a CEAL para colocar energia nos lotes, para fazermos a irrigação, como os grandes têm, agente tem direito não é governador? O senhor poderia da uma mãozinha com CEAL, falar que teve por aqui, que comeu uma galinha de capoeira e um feijão verde e que proseando com nós ouviu essa queixa. Podemos contar com o Senhor?

Outra coisa: brigamos com o outro governo para fazer a creche para as crianças, para nossas mulheres ficarem mais livres e ajudar nós na roça. Depois de pronta ficou bonita, pena que o piso afundou logo na primeira semana e que a prefeitura tomou conta e fez funcionar a escola, agora tem escola e não tem creche. A antiga “casa grande”, que hoje é a casa comunitária é bonita e grande, não temos condições de reformar e fica jogada, nosso sonho era reformar e servir de escola - ai escola volta a ser creche - e para encontro da nossa comunidade. Sabemos que o senhor é educado e vai ajudar nós a ter a escola e a creche, ai vai ser bom demais.

Então para falar da casa de farinha nova, a gente andou conversando por aqui e estamos pensando em organizar os produtores de farinha da região, para que outros companheiros possam fazer parte. Nós vimos que falta uma balança boa, o povo da CPT disse que seria uma balança de precisão, então nos precisa dessa balança mesmo. A outra coisa era construir um galpão ao lado da casa de farinha para armazenar a macaxeira e a mandioca. Assim vamos trabalhar melhor e mais fortes.

Voltando a nossa história o INCRA conseguiu a imissão de posse no dia 27 de março de 2001. Naqueles dias a Igreja estava celebrando o ano Jubilar do nascimento de CRISTO, como ele nasceu no campo decidimos colocar o nome do nosso assentamento JUBILEU 2000 em homenagem ao nascimento de Jesus.

A luta ainda é grande, mas momentos como este da inauguração da casa de farinha nos faz acreditar que vale a pena e que estamos construindo aos poucos dignidade no campo. Agradecemos o empenho do senhor e a sua vinda em nossa casa. Seja sempre bem vindo. Como somos um povo resistente, vamos lutar pela estrada boa, pela reforma da casa da comunidade e da creche, por energia no lote... Briga do nosso lado governador!


São Miguel dos Milagres – Jubileu 2000 – 30 de maio de 2009

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