segunda-feira, 15 de junho de 2009

Feira Camponesa: um pedaço do campo no coração de Maceió


[Artigo]

Por: Carlos Lima - Historiador e Coordenador da CPT de Alagoas



A Feira Camponesa é uma realidade que chegou na sua décima edição e vem atraindo milhares de pessoas. Apesar das fortes chuvas que caíram na capital alagoana, cerca de 10 mil pessoas passaram pela praça da Faculdade entre os dias 9 e 11 de junho, para comprar produtos vindos das áreas de assentamentos, de acampamentos e de posseiros do campo alagoano e se deliciar com o melhor forró pé de serra do nosso Estado. Foram comercializadas 134 toneladas de alimentos sadios por um preço justo, vindos do sertão, do litoral e da mata, expostos por 103 feirantes.

Como em toda feira, a camponesa é um espaço de comercialização de produtos, de pechincha, de cultura e de muitas histórias interessantes. O diferencial é que os produtos não possuem agrotóxicos, são comercializados pelos próprios produtores, os mesmos que lutaram para conquistar a terra e que sofreram em baixo da lona preta. São os frutos de muita luta e do suor das famílias camponesas, que tem sabor de justiça social!

Foi gratificante ver as pessoas chegando de carro, de ônibus ou caminhando em baixo de chuva para comprar os produtos fresquinhos vindos do campo, alguns mais saudosistas lembravam-se das suas infâncias no interior do estado e passavam todos os dias para comprar alguma coisa e fazer as refeições na praça de alimentação montada na feira. Macaxeira, inhame, cuscuz, bode guisado, buchada, galinhas e ovos de capoeira fizeram parte da gastronomia da feira e atraiu muita gente, que enchia a pança por um precinho de feira.

As noites foram marcadas pelo forró pé de serra, subiram no palco os grupos: Nó Cego, Joelson dos Oito Baixos, Malaquias do Forró, Xote.com e Pinóquio do Acordeon. Foram 15 horas de forró de qualidade com excelentes músicos, num ambiente tranquilo. O frio de junho e o choro da sanfona foram ingredientes para ralar o bucho e lustrar as fivelas.

A Feira Camponesa já faz parte do calendário cultural da cidade de Maceió. A sociedade comparece e reivindica que outras edições aconteçam durante o ano. Os argumentos são distintos, mas caminham no mesmo sentido em consonância, alguns defendem porque trás vida a praça que se encontra abandonada, mal iluminada, num cenário propício para a prática de assaltos e usos de drogas; outros porque é bom ver a casa de farinha instalada e produzindo farinha e beiju de qualidade, e outros, simplesmente, porque querer sentir o cheiro do campo. Todos querem mais feiras e cultura camponesa na praça, no coração de Maceió.

A Feira é uma iniciativa da Comissão Pastoral da Terra (CPT-AL) que começou há cinco anos e na primeira edição tinha apenas 25 bancas padronizadas, atualmente conta com 140 e acumula uma experiência técnica que possibilita capacitar os feirantes e contabilizar a quantidade de alimentos comercializados. A organização da feira conta com o apoio do governo do Estado de Alagoas e do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), o governo se constitui no maior parceiro deste evento, que gera renda aos camponeses e trás cultura à Maceió.

Os desafios ainda são grandes: melhorar a limpeza da praça, utilizar uma iluminação de forma adequada que garanta segurança aos feirantes e consumidores; presença de forma efetiva do aparato de segurança pública; padronizar a parte de trás das barracas; eliminar o uso de sacolas plásticas, que agridem o meio ambiente; e obter um maior apoio de outros órgãos relacionados com a reforma agrária, a exemplo do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

“Plantar, colher e repartir, o galo cantou que é pra gente ir, de todo canto tem o que há de melhor, é um pedaço do campo no coração de Maceió”. Foi assim que o compositor alagoano Stanley Carvalho definiu a feira camponesa na sua música.

Nenhum comentário: