sábado, 31 de outubro de 2009

ARTIGO: Olimpíadas do social


Por: Frei Betto - é escritor, autor do livro de contos "Aquário negro" (Agir), entre outros livros.


O governo acaba de divulgar os dados do Censo Agropecuário. E de dar razão ao MST quando reivindica reforma agrária.

Há no Brasil 5, 175 milhões de propriedades rurais. Ocupam uma área total de 329,9 milhões de hectares. Um hectare equivale a um campo de futebol. Essas propriedades empregam 16,5 milhões de pessoas, e mais 11,8 milhões de trabalhadores informais (bóias-frias, diaristas etc.).

Dos que trabalham no campo, 42% não terminaram o ensino fundamental; 39,1% são analfabetos; apenas 8,4% têm o fundamental completo; 7,3% obtiveram diploma de nível superior; e 2,8% cursaram o técnico agrícola.

Esses dados explicam a baixa qualidade dos trabalhadores rurais, uma vez que o governo não lhes oferece instrução adequada, e a perversa existência de trabalho escravo, favorecido pela situação de miséria de migrantes em busca de sobrevivência.

A concentração de terras em mãos de poucos é 67% superior à da renda no país, cuja desigualdade se destaca entre as maiores do mundo. Essa concentração, agravada pelo agronegócio voltado à exportação de soja, cana e carne de gado reduz o número de trabalhadores no campo.

Em dez anos, 1,363 milhão de pessoas deixaram de trabalhar na lavoura. Muitas viraram sem-terra. E não foram poucas as que migraram para, nas cidades, engordar o cinturão de favelas e agravar a incidência da mendicância e da violência urbana.

A mesa do brasileiro continua a ser abastecida pela agricultura familiar, que emprega 12 milhões de pessoas (74,4% dos trabalhadores no campo), enquanto o agronegócio contrata apenas 600 mil. Na cesta básica, a agricultura familiar é responsável pela produção de 87% da mandioca e 70% do feijão.

Segundo o Censo, 30% das nossas lavouras utilizam agrotóxico. Porém, apenas 21% recebem orientação regular sobre essa prática. Ou seja, muitos utilizam herbicidas no lugar de inseticidas e, ao aplicar veneno na terra, não cuidam de se proteger da contaminação.

Na mesa do brasileiro, entre verduras folhudas e legumes viçosos, campeia a química que anaboliza os produtos e prejudica a saúde humana. São 713 milhões de litros de veneno injetados, por ano, na lavoura do Brasil. E até hoje o governo resiste à proposta de obrigar a prevenir os consumidores sobre se o produto é ou não transgênico.

A agricultura orgânica ainda é insignificante no Brasil: apenas 1,8%. Mas já envolve mais de 90 mil produtores. A maior parte da produção (60%) se destina à exportação: Japão, EUA, União Européia e mais 30 países.

O Censo revelou ainda que os jovens estão abandonando o campo. Apenas 16,8% dos produtores têm menos de 35 anos de idade, e 37,8% têm 55 ou mais. Houve melhora na qualidade de vida: 68,1% dos estabelecimentos rurais contam com energia elétrica (o programa Luz para Todos funciona) e a irrigação aumentou 39%, favorecendo 42% da área total.

Em dezembro, os chefes de Estado de todo o mundo se reunirão em Copenhague para debater o novo acordo climático, considerando que o Protocolo de Kyoto expira em 2012. Segundo dados da ONU, em 2050 – quando haverá aumento de 50% da população do planeta - a escassez de alimentos ameaçará 25 milhões de crianças, pois a produção mundial, devido ao aquecimento global, sofrerá redução de 20%.

Os habitantes dos países pobres terão acesso, em 2050, a 2,41 mil calorias diárias, 286 calorias a menos do que em 2000. Nos países industrializados, a redução será de 250 calorias. Drama que poderá ser evitado se houver investimento de US$ 9 bilhões/ano para aumentar a produtividade agrícola.

Estudo do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar constata que a escassez levará à alta dos preços de alimentos básicos, como trigo, soja e arroz. Este produto, essencial na dieta mundial, poderá ter aumento de até 121%! Hoje, a fome ameaça 1,02 bilhão de pessoas (15% da população mundial).

O Brasil é, hoje, um dos maiores produtores mundiais de alimentos. Nosso rebanho bovino conta com quase 200 milhões de cabeças – responsáveis também pelo aquecimento global -, e a fabricação de etanol elevou a produção de cana-de-açúcar para quase 400 milhões de toneladas/ano.

Apesar dos dados positivos de nossa produção agropecuária, ainda convivemos com a fome (11,9 milhões de brasileiros); a mortalidade infantil (23 em cada 1.000 nascidos vivos); o analfabetismo (15 milhões); e alto índice de criminalidade (40 mil assassinatos/ano).

Bom seria se a nação também se mobilizasse para as Olimpíadas do Social e, enquanto o Rio reforma seus estádios para 2016, o Brasil promovesse as tão sonhadas, prometidas e adiadas reformas: agrária, política, educacional, sanitária e tributária. 


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Festa no litoral norte pelos 25 anos da CPT



Texto e fotos: Helciane Angélica – Jornalista/CPT


Na quinta-feira (29.10), os trabalhadores e trabalhadoras rurais comemoraram os 25 anos da Comissão Pastoral da Terra em Alagoas e os 10 anos de resistência no litoral norte. A programação teve início com uma missa de ação de graças na Igreja São José, no povoado da Laje em Porto de Pedras, celebrada pelo Padre Alex Cauchi.

Na ocasião, foi realizada uma retrospectiva das ações desenvolvidas pela pastoral social que é interligada à Igreja Católica. O padre destacou ainda que existem muitas pessoas ligadas a outras religiões e instituições diversas que ajudam na luta pela reforma agrária. Também fez críticas aos religiosos que só aparecem nos assentamentos depois que está tudo organizado. Mas, no processo de conflito, de disputa pela terra e de maior sofrimento que são nos acampamentos ninguém aparece, inclusive, na sua maioria criticam.

Acredito em Deus que criou a vida, a luta e a terra para todos. Vamos pedir a Deus para a gente continuar lutando e não sofrer nenhum tipo de escravidão e para ter não só direito a terra e sim dignidade, ter professores que acreditem na reforma agrária, saúde de qualidade para todos (...) Se não lutar, o bom destino não chega”, afirmou Alex.

Após a conclusão da missa, todos os presentes foram até a rua dialogar com a população. Na caminhada embaixo do sol escaldante, foram percorridos 6 km até a praça Santo Antônio em São Miguel dos Milagres, teve panfletagem, músicas temáticas e pronunciamentos sobre a trajetória da CPT no Estado, além de condenar a concentração de terras e a exploração dos agricultores. A atividade foi encerrada com um almoço coletivo.

Confira algumas fotos da comemoração:


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Camponeses do litoral norte festejam 25 anos da CPT


O ano de 2009 é de celebração para a Comissão Pastoral da Terra em Alagoas, que luta pelos direitos das famílias camponesas para terem direito a produzir na terra, ter água e dignidade humana



Por: Helciane Angélica - Jornalista/CPT


Nesta quinta-feira (29.10) os trabalhadores rurais que residem no litoral norte, realizarão uma ação comemorativa dos 25 anos da Comissão Pastoral da Terra em Alagoas. Cerca de 300 pessoas irão participar da atividade que terá início às 8h, no povoado da Laje no município de Porto de Pedras, com uma missa de ação de graças a ser celebrada pelo Padre Alex Cauchi.

A partir das 9h30, todos os participantes saíram em cortejo até a cidade de São Miguel dos Milagres munidos de faixas e bandeiras. Nos quase 13 km de caminhada, serão entoados cânticos utilizados em romarias e que abordam a luta pela reforma agrária, nas paradas estratégicas acontecerão alguns depoimentos dos agricultores, e no encerramento terá um almoço coletivo.

Segundo a religiosa Cícera Menezes, coordenadora da área, a programação foi definida em conjunto com os assentados e serve para celebrar as conquistas alcançadas. “
Para nós essa ação é para dizer que valeu a pena esses 25 anos da CPT aqui em Alagoas e só vem confirmar a luta que nós temos em defesa das famílias camponesas. Para mim, essa não é apenas uma missão cristã e sim cidadã”, afirmou.

Atualmente no litoral norte alagoano existem oito acampamentos e já foram reconhecidas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra-AL) cinco áreas como assentamentos, acompanhados pela CPT, são eles: Jubileu 2000 e Quilombo dos Palmares no município de São Miguel dos Milagres; Irmã Doroty Stang e Padre Alexsander Cauchi em Porto de Pedras; e Margarida Alves II em Maragogi.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ARTIGO - Réquiem para a transposição do São Francisco


Por: TOMÁS BALDUINO



O dobre dos sinos e o jejum têm o peso de uma profecia. Esses símbolos querem dizer que a transposição do São Francisco não se concluirá






É NATURAL que chefes de Estado tenham o sonho de vincular sua memória a uma grande obra perene. Brasília é o monumento que imortalizou Juscelino Kubitschek.

Imagino que Lula, nordestino que passou sede no semiárido, carregou pote d'água na cabeça, possa estar sonhando em se ligar pessoalmente com o nordestino rio São Francisco, símbolo da integração nacional, transformando o grande sertão da seca num abençoado oásis graças a um gigantesco projeto de transposição de suas águas. O projeto nada deveria à Transamazônica nem a Itaipu.

Isso explica, quem sabe, sua apaixonada tenacidade em querer levar adiante essa obra apesar das inúmeras reações contrárias de parte do Judiciário, do Ministério Público, da mídia, dos cientistas, do episcopado católico, das organizações sociais, dos atingidos pelas obras: camponeses, quilombolas, grupos indígenas.

Na sua excursão ao longo do projetado canal, levando aos palanques Ciro Gomes, além da candidata Dilma Rousseff, não faltou, da parte do presidente, o irado recado para os que ele considera obstáculos à transposição.

Enquanto isso, chamou a atenção de muitos o gesto do bispo da Barra, dom Luiz Cappio, ordenando o dobre de finados na catedral enquanto Lula perambulava por aquela cidade.

Os sinos são a secular e inconfundível marca da cultura cristã nos templos das grandes metrópoles e nas pequeninas capelas do interior. Acompanham alegrias e esperanças, tristezas e angústias da comunidade nos eventos maiores do lugar ou marcam, com seu toque lúgubre, a morte dos entes queridos e o Dia de Finados.

Conhecendo pessoalmente os sentimentos desse homem, que não hesitou em colocar a sua vida pelo povo ribeirinho, bem como pela revitalização do rio, posso dizer que esse gesto, o do dobre dos sinos, bem como o do jejum, tem o peso de uma profecia.

Esses símbolos querem dizer que a transposição do São Francisco não se concluirá. Morrerá. Descansará em paz. Réquiem, então, para ela!

Muita gente está convencida da inviabilidade desse megaprojeto. Eis as razões. A transposição pretende guindar continuamente, em um desnível de 300 metros, 2,1 bilhões de m3 da água mais cara do mundo para o Nordeste, que, por sua vez, já acumula 37 bilhões de m3 a custo zero. Se o problema da seca do Nordeste não se resolve com esses 37 bilhões de m3 armazenados, irá ser resolvido com 2,1 bilhões de m3 da transposição?

Uma certeza muitos têm: os 70 mil açudes do Nordeste construídos nesses cem anos demonstram que lá não falta água. O que falta é a distribuição dessa água. Basta implantar um vigoroso sistema de adutoras, como o proposto pela Agência Nacional de Águas, por meio do "Atlas do Nordeste", que foi abafado pelo governo.

Trata-se de levar água por meio de uma malha de tubos e adutoras a toda a população difusa do semiárido para o abastecimento humano, sem a transposição. Enquanto a transposição atenderia 12 milhões de pessoas em quatro Estados, segundo dados oficiais, o projeto alternativo atenderia 44 milhões em dez Estados. Custo: metade do preço da transposição.

Nesse emaranhado de conflitos, existe um esperançoso toque de sino.

Enquanto, de um lado, ainda prevalece a indústria da seca (a transposição aí se inscreve), que rende uma fortuna para os políticos e empresários e mantém o povo na situação do flagelado retirante, segundo a expressão lírica de Luiz Gonzaga, de Portinari, de Graciliano Ramos, de João Cabral de Melo Neto etc., do outro lado está surgindo uma nova consciência nas comunidades populares carregada de esperança libertadora.

Trata-se da convivência com o semiárido. Como os povos do gelo, das ilhas e do deserto vivem bem na convivência com seu habitat, assim esse povo começa a descobrir a extraordinária riqueza de vida do Nordeste. A questão não é "acabar com a seca", mas de se adaptar ao ambiente de forma inteligente.

Nessa linha, um pedreiro sergipano inventou a tecnologia revolucionária das chamadas cisternas familiares de captação da água de chuva para o consumo humano.

Está chegando, pois, a transfiguração do povo e da terra construída de baixo para cima, no respeito e na convivência, libertando-se dos projetos faraônicos devastadores, impostos autoritariamente de cima para baixo.

Esse humilde toque de sino, alegre e festivo, já se pode ouvir com nitidez, pois essa mudança, cheia de vida e esperança, é um fato no grande sertão nordestino.


(*) DOM TOMÁS BALDUINO, 86, mestre em teologia e pós-graduado em antropologia e linguística, é bispo emérito de Goiás e ex-presidente da Comissão da Pastoral da Terra.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Juiz intervém contra ameaças destinadas a agricultores

Há 1 ano e meio, famílias acampadas produzem alimentos diversos em uma fazenda ociosa, e agora, estão sendo intimidadas por políticos locais


Por: Helciane Angélica - Jornalista/CPT

Após ameaças constantes destinadas às 28 famílias camponesas que estão acampadas na fazenda Boa Esperança, em Major Izidoro, a Comissão Pastoral da Terra (CPT-AL) procurou as providências cabíveis em relação ao caso. Na última terça-feira, uma comitiva esteve no local para prestar solidariedade, entregar cestas básicas e exigir das autoridades responsáveis a garantia da integridade física e moral dos trabalhadores rurais.

Na ocasião, integrantes da CPT, Central Única dos Trabalhadores (CUT-AL), o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município, Ouvidoria Agrária do Incra-AL e o Gerenciamento de Crises da Polícia Militar estiveram no Fórum Desembargador José Fernando Lima Souza, para conversar com o Promotor de Justiça Hamilton Carneiro Júnior e o Juiz Carlos Aley Santos Melo para que possam intervir no conflito agrário e coibir as intimidações, antes que problemas mais graves possam ocorrer.

Promotor de Justiça Hamilton Carneiro Júnior e o Juiz Carlos Aley Santos Melo


De acordo com ouvidor agrário estadual, Marcos Bezerra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra-AL) adquiri imóveis por meio de duas formas: no primeiro caso quando o próprio dono do imóvel oferece ou quando após um levantamento técnico, constata um alto grau de improdutividade ou irregularidades. Em relação à fazenda Boa Esperança já vinha sendo realizado um acordo amigável com o proprietário Deputado Federal Benedito de Lira (PP/AL) já que existe um débito no Banco do Nordeste, o que facilitaria a negociação. Além disso, na certidão do imóvel foram declarados 580 hectares, mas após levantamento técnico com utilização de GPS, o Incra encontrou apenas 470, o que pode se configurar como prática de grilagem (registro de documentos incorretos).


O Gerenciamento de Crises da PM e a Ouvidoria Agrária do Incra-AL estão acompanhando o caso


Ameaças

No mês passado o Deputado Estadual Arthur Lira, filho do proprietário, afirmou que os barracos seriam derrubados e todos seriam retirados à força. E há duas semanas, apareceu um suposto comprador, o ex-prefeito de Igaci, Petrucio Barbosa, que juntamente com o genro Henry Sidney Amaral Araújo, contrataram alguns agricultores para trabalhar na área, no entanto, não existe qualquer documentação no Incra ou na Vara Agrária alagoana, que confirme essa representação legal.

Meu sogro é um potencial comprador, como ele mora em outro município, eu estou aqui para ajudá-lo. O Arthur disse que tinha um acordo com o pessoal (trabalhadores) e estava tudo resolvido, mas eu não sei de nada, como andam as coisas lá no Incra”, declarou Henry, que também é Tabelião do Cartório de Ofício de Contas, Protestos, Registro de Imóveis de Major Izidoro.

Os trabalhadores ainda afirmam que ocorreu a retirada de uma bandeira da CPT do acampamento, algumas casas de taipa foram destruídas com o auxílio de um trator, e alguns homens circulam constantemente em motos e carros, alguns deles, fa

zem questão de demonstrar que estão fortemente armados. O 1º Sargento PM, Eglivan Moura Santos, do Gerenciamento de Crises, destacou que todas as informações irão constar em um relatório a ser encaminhado para o Comando da Polícia Militar e por questão de segurança as partes envolvidas não podem conviver no mesmo local. “A convivência entre os trabalhadores e o Sr. Henry é um risco, até porque se acontecer alguma coisa grave o primeiro suspeito será imediatamente do outro lado. Então, não é viável a ida nem a permanência do Sr. Henry no local”, afirmou.


Relato sobre a audiência com o Juiz


Resoluções

O Juiz de Direito da Comarca de Major Izidoro, Carlos Aley Santos Melo ouviu todos os presentes e afirmou que entrará em contato com o Juiz Ayrton Tenório da Vara Agrária, para dar celeridade ao caso. “Os trabalhadores já demonstraram a opinião de que não querem sair da área por livre e espontânea vontade, e só a Vara Agrária tem competência em determinar a saída deles”. Em relação às negociações com futuros proprietários destacou que é inviável até a situação ser resolvida. “No momento, essa terra não tem condições de ser vendida, até porque está sendo destinada para a reforma agrária, então, qualquer ato que tente expulsá-los de lá ou de constrangimento é ilegal”, reforçou.

Para a vice-presidente da CUT-AL, Lenilda Lima, os trabalhadores rurais estão lutando pelo direito à plantar, retirar da terra o que foi produzido, e só com a união e a resistência vão conquistar o que tanto querem. “Vocês não estão sós e hoje na audiência oficializou a luta que estão passando aqui. Nós não podemos continuar vivendo com medo nesse Estado, a escravidão já acabou faz tempo, somos independentes e estamos lutando por uma causa justa. A vitória de é a nossa vitória”, exaltou. vocês

A audiência no fórum foi encerrada com a assinatura de um Termo de Comparecimento e Compromisso, onde determina que Henry Sidney Amaral Araújo não frequente mais a área até que seja oficialmente resolvido o caso pela Vara Agrária. A CPT-AL continuará atenta para as atitudes constrangedoras e de terrorismo em relação aos trabalhadores rurais, além de exigir que o Incra tomem uma postura mais enérgica e atuante para que a situação seja resolvida.

Agricultores já podem aderir ao Garantia Safra

Seguro paga R$ 600 se o agricultor tiver perda da plantação por seca ou chuva. A expectativa é que 30 mil agricultores em Alagoas façam parte do programa durante a safra 2009-2010


Os agricultores familiares de 38 municípios do Semiárido alagoano já podem fazer a adesão ao Programa Garantia Safra, um seguro da plantação que paga R$ 600 em caso de perda por seca ou excesso de chuva.

Para aderir ao seguro, o agricultor precisa procurar um técnico da Secretaria de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário (Seagri) no município onde mora. Depois, ele paga uma taxa única de adesão de R$ 6. Caso não tenha escritório da Seagri no município, ele deve ir ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais. O prazo para fazer a adesão vai até 30 de dezembro.

A expectativa é que 30 mil agricultores em Alagoas façam parte do programa durante a safra 2009-2010. “Essa é uma garantia de que ele será ressarcido em caso de perda, e isso é muito importante para a economia dos municípios da região, pois injeta dinheiro numa fase complicada para o produtor rural”, lembra o secretário de Estado da Agricultura, Jorge Dantas.

O Garantia Safra está disponível para plantação de feijão, milho, algodão, arroz e mandioca. Os municípios também estão assinando o termo de adesão ao seguro e eles pagam R$ 18 por cada agricultor que aderir. Já o Estado paga R$ 35 por agricultor, e a União paga R$ 120. O total arrecadado vai para um fundo solidário.

Para receber o seguro, é preciso que a perda seja igual ou superior a 50% da plantação. O laudo é fornecido por um agrônomo ou técnico agrícola cadastrado pelo município, que visita 10% dos empreendimentos rurais de cada local e atesta se realmente houve perda. Depois, os dados são enviados para o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em Brasília, que autoriza o pagamento.

Após essa autorização, basta que o agricultor vá a uma agência da Caixa Econômica ou casa lotérica com o cartão cidadão, o mesmo utilizado para o pagamento do Bolsa Família. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (82) 3315-3668 ou nos escritórios municipais da Seagri.


Fonte: Diego Barros - Assessor de Comunicação
Secretaria de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário
(82) 3315-1396 / 8891-4528
www.agricultura.al.gov.br

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Mulheres se engajam na luta pela reforma agrária em Alagoas

"Somos nós que dizemos se iremos ocupar e quando isso irá acontecer!, afirma militante



A luta pela reforma agrária sempre teve um personagem importante: a mulher. A figura feminina tem ganhado força ao longo dos anos na luta camponesa pela terra. Em Alagoas, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a presença da mulher vem se tornando cada vez mais comum não apenas em assentamentos ou à frente de movimentos sociais, como também nas diretorias de órgãos como a entidade. Em alguns estados do nordeste o Ministério do Desenvolvimento do Desenvolvimento agrário desenvolve cursos destinado às mulheres engajadas nos movimentos pela terra.

Segundo Carlos Lima, coordenador da CPT em Alagoas, a grande quantidade de mulheres fortalece a luta camponesa. Para ele, as mulheres tem uma “maneira específica” de participar dos movimentos que reivindicam a reforma agrária. Ele lembra que a mulher, por ter dado forma à agricultura, é papel importante nos assentamentos, também pelo cuidado e dedicação que tem com o trabalho no campo.

Lima colocou ainda que a CPT tem incentivado a criação de grupo de mulheres nos assentamentos ligados à entidade. “Na entidade, a maioria é de mulheres, inclusive no corpo técnico. No campo, vemos também essa grande presença feminina. É muito importante que as mulheres participem, estejam à frente. A presença delas fortalece os movimentos”, disse o coordenador da CPT.

Para Carlos Lima, Maria José Cavalcante, a Maria do Bosque, como é mais conhecida, reflete o retrato da luta feminina pela reforma agrária em Alagoas. Maria tem 30 anos e vive no assentamento Flor do Bosque, na cidade de Messias, onde vivem 35 famílias. Solteira e sem filhos, Maria, que esteve em Maceió na última semana participando da 11ª Feira Camponesa, diz que ingressou no movimento em busca de um pedaço de terra, mas hoje sonha em poder contribuir para a reforma agrária.

“Eu vivia lá em Messias e não tinha terra. Não teria futuro na cidade e comecei a perceber isso. Não tinha conquistado nada ainda, e quando entrei no movimento, vi que era capaz. Então, tive a oportunidade de ingressar no Movimento e lá dentro vi que podia fazer muito mais pelas pessoas”, disse Maria.


Curso

Engajada na luta pela reforma agrária, Maria estudou, fez cursos e se tornou técnica agropecuária. Com a nova formação, ela começou a orientar os demais assentados repassando os ensinamentos que aprendeu durante a sua capacitação. Para Maria, as mulheres são peça fundamental nas conquistas camponesa em todo o País e tem mais cuidado no trato com a terra.

“A mulher sempre esteve presente na reforma agrária. Somos nós que dizemos se iremos ocupar e quando isso irá acontecer, nós resistimos, ocupamos e nos preocupamos com as crianças e a comida. Cada vez mais, as mulheres estão se engajando também à frente dos movimentos”, colocou Maria.

Indagada sobre qual o seu sonho, Maria diz que já o alcançou quando conquistou a sua terra. “Quem tem terra, é dono do seu sonho”, afirmou. Para ela, a reforma agrária tem avançado em alguns pontos, mas ainda há muito a ser feito pelos trabalhadores rurais do Brasil. Segundo Maria, não adianta apenas dar um lote de terra aos camponeses senão for oferecida a estrutura mínima para que os assentamentos possam prosperar.

“A gente sonha com a terra. Depois, sonhamos em plantar, produzir e poder retribuir e ajudar a todas as pessoas. Se fala muito na tão sonhada reforma agrária, mas o problema não se resolve apenas com um pedaço de terra, vai muito além disso. A luta é dura, mas temos esperança de que essa situação mude um dia e tudo fique melhor. Nós produzimos o alimento que é consumido na cidade, já que pé de feijão não nasce no asfalto”, colocou Maria.


Preconceito

Mesmo sentindo que a questão da reforma agrária vem avançando, Maria coloca que há outro ponto que merece atenção: o preconceito contra os trabalhadores rurais. Ela atribui parte desse “distanciamento” entre os movimentos e a sociedade a notícias veiculadas na mídia, onde os camponeses aparecem como os “vilões” em muitas situações.

“Somos taxados de preguiçosos, vagabundos e ladrões. A mídia só mostra o que interessa a ela e as coisas boas que fazemos. Mas, nós não nos intimidados diante dessa situação. Somos trabalhadores e produzimos. A gente sabe que, apesar de muita campanha contra, há pessoas que sabem da nossa seriedade”, finalizou Maria.


Fonte: Jornalista Teresa Cristina - Jornal Alagoas em Tempo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Após ameaças, trabalhadores rurais recebem apoio


Vinte e oito famílias camponesas que estão acampadas há 18 meses em uma fazenda do Deputado Federal Benedito de Lira, terras improdutivas, estão sendo intimidadas em Major Isidoro



Por: Helciane Angélica - Jornalista/CPT


Na manhã desta terça-feira (20.10), integrantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT-AL), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) representada pela Vice-Presidente Lenilda Lima e vários trabalhadores rurais da região prestarão solidariedade às famílias camponesas que ocupam há 1 ano e seis meses, a fazenda Boa Esperança, que encontra-se 7km distante do município de Major Isidoro, no sertão alagoano.


Na visita prevista para às 10h, serão entregues cestas básicas para as 28 famílias resistentes no imóvel, que pertence ao Deputado Federal Benedito de Lira (PP/AL). Ainda terá um protesto nas ruas da cidade, para que a população local tenha acesso às informações, saibam da produção agrícola que está sendo desenvolvida e as humilhações sofridas. Além disso, também acontecerá uma visita ao Promotor de Justiça Hamilton Carneiro Júnior e ao Juiz Carlos Aley Santos Melo para que possam intervir nesse conflito agrário e ter maior celeridade no caso.


Desde o mês passado, os agricultores vêm sofrendo duras ameaças. Primeiramente pelo Deputado Estadual Arthur Lira, filho do proprietário, onde afirmou que os barracos seriam derrubados e todos seriam retirados à força. E há duas semanas, apareceu um suposto comprador identificado por Petrucio Barbosa, que juntamente com o genro Henry Sidney Amaral Araújo (Tabelião do Cartório de Ofício de Contas, Protestos, Registro de Imóveis do município) vem rodando a área com motos e carros durante todo o dia. Também retiraram a bandeira da CPT que ficava no acampamento e derrubaram algumas casas de taipa com o auxílio de um trator. No entanto, não existe qualquer documentação no
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ou na Vara Agrária alagoana, que confirme a representação legal.

Atualmente, tramita na Vara Agrária um processo, onde exige a desapropriação do imóvel, que vinha sendo discutido amigavelmente com o representante do proprietário Benedito Lira. Também foram entregues documentos com os relatos dos fatos ocorridos e exigindo providências junto ao
Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas (Gecoc) e ao Incra-AL, mas nada foi resolvido ainda.

Retrospectiva

A área foi encontrada em total estado de abandono e durante dez anos, tinha apenas um funcionário responsável em fiscalizar o patrimônio. Durante esse período de ocupação, os barracos foram montados e a produção agrícola incentivada, hoje, os agricultores cultivam o milho, feijão, batata, abóbora, fava, macaxeira e ainda possuem uma pequena criação de animais.


Os coordenadores da CPT buscam o apoio necessário dos órgãos competentes para garantir a integridade física, material e proteção às vidas dos acampados e acampadas. Para isso, foi encaminhado um ofício para as Ouvidorias Agrárias do Incra-AL e Nacional; os Conselhos Estaduais de Direitos Humanos e Segurança Pública; Secretaria Estadual de Defesa Pública; Comissão Estadual de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil; e instituições internacionais que apóiam a luta pela reforma agrária.

Mais informações: (82) 9127-5773 / 9126-1532 / 9127-0366.