sexta-feira, 2 de outubro de 2009

ENTREVISTA: Pe. Hermínio Canôva ressalta as principais ações e conquistas da CPT-AL


O coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra é formado em Sociologia, trabalha a teologia da terra para leigos e seminaristas; além de ser especialista na questão agrária no Nordeste e atua na Arquidiocese de João Pessoa (PB).


1. Quais foram os fatos mais marcantes da trajetória da CPT nesses 25 anos em Alagoas?

Pe. Hermínio: Alagoas foi marcada muito forte pela opressão por parte dos usineiros, e no sertão pelos fazendeiros. O que impressiona para quem é de fora, é o grau muito alto de opressão por parte desses coronéis e até um dado impressionante, é que por exemplo, a Liga dos Camponeses nos anos 60, não conseguiram entrar em Alagoas. Eles começaram em Pernambuco com o partido socialista, passaram para Paraíba com o partido comunista, no Rio Grande do Norte e outros locais do país, e aqui não conseguiram entrar, por causa desse controle muito pesado. Por isso, a gente entende toda dificuldade, perseguições, problemas, sofrimentos do povo do campo e da CPT, as lutas daqui foram muito mais sofridas, e até dar para ver ainda situações difíceis, ainda tem mais acampados do que assentados.


2. Que consequências essa opressão e controle político trouxeram para o Estado?

Pe. Hermínio: Houve uma época aqui, que a gente estava muito preocupado, porque tinham muitas mortes. Nos anos 80 e começo dos anos 90, tinham gangues até infiltradas nos setores do Estado que matavam muitos trabalhadores. Apareciam cadáveres nos canaviais toda semana. (...) Toda essa mata norte aqui ficou marcada por vários anos devido aos assassinatos, cometidos a serviço dos poderosos da região, eram crimes organizados e de pistolagem, inclusive, tinham até policiais envolvidos no extermínio. Então, houve um forte trabalho de denúncia, e essa estrutura de morte em Alagoas foi desmantelada, embora, ainda continuam tendo muitos problemas.


3. Dentre as ações realizadas pela CPT qual o senhor considera exemplar?

Pe. Hermínio: A CPT teve coragem de provocar o surgimento do grupo móvel de combate ao trabalho escravo. No país todo, foi sempre iniciativa da CPT, e vários estados investiram na erradicação do trabalho escravo, contra o trabalho degradante, por meio de ações de conscientização, informação, e denúncias de casos de trabalho no Ministério Público, do Trabalho e na polícia federal para pegar em flagrante os responsáveis, além de libertar os trabalhadores.


4. Na sua opinião, qual a importância da CPT para as famílias camponesas?

Pe. Hermínio: A CPT criou um espírito de família! A família camponesa sem terra ou com pouca terra, acampados e assentados, formaram uma grande família e essa solidariedade camponesa que se manifesta nos eventos, mobilizações, bloqueios de BR e ocupações. Acho, que é o Estado onde acontecem mais bloqueios e ocupações de praças, no Incra e em outros órgãos públicos. Quer dizer, que essa família é solidária e mobilizada!


5. O senhor acompanhou não só o nascimento como também a formação da CPT-AL. Esteve envolvido em quais atividades?

Pe. Hermínio: Eu acompanho a CPT-AL desde 1984, e acompanhei muitos casos e muitos problemas. Nos últimos anos, participei da assembleia anual da CPT, assessorando e para dar algumas palestras, e representando a Coordenação Nacional. (...) Também dei aulas no Seminário daqui, com o curso de Teologia da Terra, passando um pouco dos conhecimentos e a experiência que tenho também para os trabalhadores, a equipe e os agentes de pastoral. E também o que mais me marcou, foram as romarias, que por vários anos aconteceu na Serra da Barriga, transmitindo a experiência de Zumbi.


6. E porque o senhor escolheu a missão de trabalhar junto com as famílias camponesas?

Pe. Hermínio: Ser missionário, ser agente de pastoral no Nordeste é fácil se identificar com os setores mais empobrecidos, com as comunidades do interior que são aquelas que mais precisam. É claro, que agora nos últimos anos, também é muito importante desenvolver um trabalho nas periferias das grandes cidades. Mas, imagina que quando a gente começou essa missão aqui no Nordeste nos anos 70, tinha ainda, a maioria da população no campo, mas agora mudou. Naquele tempo, imagina, todo um trabalho de educação base, das CEBS [Comunidades Eclesias de Base] rurais, na formação sindical e toda mobilização dos assalariados da cana nos anos 80, quando começaram grandes greves no setor canavieiro e a Igreja estava envolvida, nós da pastoral rural envolvidos. Eram grandes mobilizações de gente massacrada no trabalho, então, a Igreja, a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] envolvidos em defesa dos direitos dos canavieiros e nas grandes greves; como também em São Paulo na luta dos metalúrgicos. (...) Então, para mim ao acompanhar a luta desse povo empobrecido, mas mobilizado, me identifiquei logo com esse tipo de pastoral (...) Pela paixão pela terra, pela luta dos camponeses, por um Cristianismo de chinelos, e por me identificar mais com interior do que com a cidade!



Entrevista realizada pela jornalista Helciane Angélica - CPT/AL.

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