terça-feira, 20 de outubro de 2009

Mulheres se engajam na luta pela reforma agrária em Alagoas

"Somos nós que dizemos se iremos ocupar e quando isso irá acontecer!, afirma militante



A luta pela reforma agrária sempre teve um personagem importante: a mulher. A figura feminina tem ganhado força ao longo dos anos na luta camponesa pela terra. Em Alagoas, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a presença da mulher vem se tornando cada vez mais comum não apenas em assentamentos ou à frente de movimentos sociais, como também nas diretorias de órgãos como a entidade. Em alguns estados do nordeste o Ministério do Desenvolvimento do Desenvolvimento agrário desenvolve cursos destinado às mulheres engajadas nos movimentos pela terra.

Segundo Carlos Lima, coordenador da CPT em Alagoas, a grande quantidade de mulheres fortalece a luta camponesa. Para ele, as mulheres tem uma “maneira específica” de participar dos movimentos que reivindicam a reforma agrária. Ele lembra que a mulher, por ter dado forma à agricultura, é papel importante nos assentamentos, também pelo cuidado e dedicação que tem com o trabalho no campo.

Lima colocou ainda que a CPT tem incentivado a criação de grupo de mulheres nos assentamentos ligados à entidade. “Na entidade, a maioria é de mulheres, inclusive no corpo técnico. No campo, vemos também essa grande presença feminina. É muito importante que as mulheres participem, estejam à frente. A presença delas fortalece os movimentos”, disse o coordenador da CPT.

Para Carlos Lima, Maria José Cavalcante, a Maria do Bosque, como é mais conhecida, reflete o retrato da luta feminina pela reforma agrária em Alagoas. Maria tem 30 anos e vive no assentamento Flor do Bosque, na cidade de Messias, onde vivem 35 famílias. Solteira e sem filhos, Maria, que esteve em Maceió na última semana participando da 11ª Feira Camponesa, diz que ingressou no movimento em busca de um pedaço de terra, mas hoje sonha em poder contribuir para a reforma agrária.

“Eu vivia lá em Messias e não tinha terra. Não teria futuro na cidade e comecei a perceber isso. Não tinha conquistado nada ainda, e quando entrei no movimento, vi que era capaz. Então, tive a oportunidade de ingressar no Movimento e lá dentro vi que podia fazer muito mais pelas pessoas”, disse Maria.


Curso

Engajada na luta pela reforma agrária, Maria estudou, fez cursos e se tornou técnica agropecuária. Com a nova formação, ela começou a orientar os demais assentados repassando os ensinamentos que aprendeu durante a sua capacitação. Para Maria, as mulheres são peça fundamental nas conquistas camponesa em todo o País e tem mais cuidado no trato com a terra.

“A mulher sempre esteve presente na reforma agrária. Somos nós que dizemos se iremos ocupar e quando isso irá acontecer, nós resistimos, ocupamos e nos preocupamos com as crianças e a comida. Cada vez mais, as mulheres estão se engajando também à frente dos movimentos”, colocou Maria.

Indagada sobre qual o seu sonho, Maria diz que já o alcançou quando conquistou a sua terra. “Quem tem terra, é dono do seu sonho”, afirmou. Para ela, a reforma agrária tem avançado em alguns pontos, mas ainda há muito a ser feito pelos trabalhadores rurais do Brasil. Segundo Maria, não adianta apenas dar um lote de terra aos camponeses senão for oferecida a estrutura mínima para que os assentamentos possam prosperar.

“A gente sonha com a terra. Depois, sonhamos em plantar, produzir e poder retribuir e ajudar a todas as pessoas. Se fala muito na tão sonhada reforma agrária, mas o problema não se resolve apenas com um pedaço de terra, vai muito além disso. A luta é dura, mas temos esperança de que essa situação mude um dia e tudo fique melhor. Nós produzimos o alimento que é consumido na cidade, já que pé de feijão não nasce no asfalto”, colocou Maria.


Preconceito

Mesmo sentindo que a questão da reforma agrária vem avançando, Maria coloca que há outro ponto que merece atenção: o preconceito contra os trabalhadores rurais. Ela atribui parte desse “distanciamento” entre os movimentos e a sociedade a notícias veiculadas na mídia, onde os camponeses aparecem como os “vilões” em muitas situações.

“Somos taxados de preguiçosos, vagabundos e ladrões. A mídia só mostra o que interessa a ela e as coisas boas que fazemos. Mas, nós não nos intimidados diante dessa situação. Somos trabalhadores e produzimos. A gente sabe que, apesar de muita campanha contra, há pessoas que sabem da nossa seriedade”, finalizou Maria.


Fonte: Jornalista Teresa Cristina - Jornal Alagoas em Tempo

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