segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Guerreiros da vila mostram talento

Por: Helciane Angélica - Jornalista/CPT


Integrantes do Ponto de Cultura Guerreiros da Vila que recebem apoio do Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu (Ceasb), que atua na Vila Emater II localizada ao lado do lixão de Maceió, foram uma das atrações mais importantes da 22ª Romaria da Terra e das Águas. No momento cultural, a banda percussiva apresentou o melhor da cultura afro-alagoana como o maracatu, coco de roda e poesias que reverenciavam o líder Zumbi.

Na segunda parada estratégica no bairro do Benedito Bentes, foi a vez do grupo teatral que desenvolveu uma apresentação reflexiva sobre a sua própria realidade. Em alguns minutos foi contada a história das 230 famílias que sobrevivem recolhendo material reciclado no lixão de Maceió.

Confira na íntegra a poesia "Do êxodo rural as favelas da capital" produzida por Helcias Pereira (arte-educador e mobilizador social do CEASB), que foi gravada e interpretada pelo grupo. Teve ainda o apoio técnico de Alex Nicolau, foi gravada por Carla Santos e Alex Nicolau, além da participação de Pablo Yoong e Rosangela Silva.






DO ÊXODO RURAL, ÀS FAVELAS DA CAPITAL

ATO 01 – VIVENDO O ÊXODO

1. De onde eu vim seu moço

Era tudo diferente

Havia uma alegria na gente

Que só de lembrar quero chorar,

Nós “brincava” o dia inteiro

Se fingindo de fazendeiro

Onde a folha do mato era o dinheiro

E o manguito no chão virava boi no “currá”.

2. Nós “tinha” o que precisava

Um balanço na goiabeira

Terra boa pra “plantá”

Muitos bichos pra tanger

E até açude pra pescar

Hoje seu moço nem recordo

Quando foi que de algum modo

Alguém me viu reclamar.

3. Lembro da roça de macaxeira

Do feijão de corda e da fava

Coisa que nunca faltava

Pra gente se alimentar

Nós “tinha” peru, carneiro e pato

E muita galinha de angola

Era tanta coisa que nessa hora

Fica difícil até de lembrar.

4. Mas moço num certo dia

Pro nosso sossego acabar

Chegou em casa um jagunço

Vindo do lado de lá

Trazendo um “ta” de papel

Em nome do coronel

Mandando a gente em três dias

Cuidar de se “aretirá”.

5. Foi muito triste seu moço

Minha mãe chorando de um lado

Meu tio do outro também

E meu pai desesperado

Sem ter no bolso um vintém

Todo mundo ali chorando

E eu parado só olhando

Sem entender nada nem ninguém.

+++++++++++++++++++++++++

6. Só depois foi que percebi

O que aconteceu de repente

A casa, os bichos, a mangueira,

O balanço, a roça, a goiabeira

O jardim, o açude e a cachoeira,

Nada mais era da gente.

7. Minha mãe me deu uma trouxa

Deu outra pro meu irmão,

Meu pai pegou o que pôde

Botou no carro de mão

E saímos mundo a fora

Sentindo uma grande dor

Deixando pra trás toda uma história

Construída com tanto amor.

8. Vendemos o que pudemos

Pra algum dinheiro arranjar

Pegamos o que precisava

Pra “mode” poder viajar

E tristes sem nenhuma fala

Subimos num pau de arara

Rumo a tal “capitá”.


ATO 2 – A VIDA DA FAVELA

9. Depois de muito penar

Chegando a grande cidade

Mamãe ficou a pensar

Onde morar na verdade?

As pessoas nos olhava

Com cara de compaixão

Porém ninguém ajudava

A resolver a situação.

10. Com fome a gente chorava

Eu, minha irmã, meu irmão,

Meu tio saiu procurando

Lugar para comprar pão

Pois o dinheiro não dava

Pra outra alimentação.

11. Paramos numa lagoa

Sem ter rumo ou noção

Ficamos a descansar

Olhando aquele “açudão”

E observando um pescador

Meu pai então atinou

Fazer ali um barracão.

12. Saiu com meu tio espiando

Buscando material

Plástico preto, compensado,

Qualquer pedaço de pau

Que pudesse ali fazer

Um barraco pra nós “viver”

Tendo a lagoa como quintal.

13. Minha mãe olhava triste

A diferenciação

Da casa que nós “morava”

Para aquele barracão

Vendo do lado só lixo

No lugar da plantação

E a comida que era farta

Virou migalhas de pão.

14. Mesmo assim mamãe orava

Pedindo a Deus proteção

Pedia a cada dia

Vencer aquela situação
de arranjar qualquer trabalho

Mesmo com pouco salário

Para mode melhorar

A nossa alimentação.

15. Vivemos ali vários dias

Na lagoa “Mundaú”

Comendo piaba e “bague”

E principalmente sururu

Até mesmo uma tal de gia

Que na verdade mais parecia

Um sapo de nome cururu.

16. De manhã cedo nós saia

Lá pras banda do mercado

Pra fazer um tal de carrego

E ganhar algum trocado

E assim comprar pra revender

Coentro, chuchu e quiabo,

Pra mode lá na quitanda

Pagar o que ficou fiado.

17. Certo dia uma vizinha

Veio a nós com seu irmão

Perguntá se nós queria

Trocar o nosso barracão

Por um barraco que eles tinha

Lá pra banda do lixão.

18. Querendo fechar negócio

Meu pai ficou animado

Morar do lado do lixo

Nós nunca tinha imaginado

Mas era melhor arriscar

Pensando em melhorar

Do que ficar ali parado.

19. Juntamos de novo o que tinha

Botamos num carro de mão

Saímos rumo a Emater

sem ter nenhuma noção

Que lá nós ia encontrar

Um morro de frente ao mar

E um enorme lixão.

20. De um lado só se via bagulho

Do outro um mar azulão

Meninos brincando no entulho

Mexendo o lixo com as mãos

Queria eu poder morar

Se fosse possível voltar

Para o meu antigo torrão.

21. Pegamos as nossas coisas

Entramos no novo barraco

De cara nós encontramos

Na porta um imenso saco

Que o antigo morador

Como presente nos deixou

Pra gente se virá, de fato.

22. Por vários dias nós fomos

No lixão ’escavucar “

Muita gente disputando

Cada espaço no lugar

E com o sacolão do lado

Todos querendo encontrar algo

Que pudesse se aproveitar.

23. Vi lá famílias inteiras

Catando o que pudia

Os pais levando seus filhos

Para aquela agonia

E pra não ser diferente

O mesmo se fez com a gente

Estando ali todo dia

24. O morro do lixo era alto

Acolhendo a multidão,

Homem, mulher e criança

Se misturando ao lixão

Ninguém sentia mais fedor

Nem o perigo do trator

ou mesmo do caminhão.

+++++++++++++++++++++++++

25. Ate que um certo dia

A imprensa ali chegou

E no programa da noite

A televisão mostrou

Crianças entre os urubus

Todas desassistidas

Mexendo aquele lixo

Procurando por comida.

26. Logo a sociedade

Tentou responsabilizar

Os políticos da cidade

Pra aquela coisa acabar

Mas ficou só na palavra

Visto que pouco importava

A realidade mudar.

27. La tem gente que caiu

De cima de um caminhão

Alguém que quebrou a perna

Outro quase perde a Mão

Tornou-se um povo esquecido

Que enfrentar qualquer perigo

Pra ter no prato o feijão.

28. Porem, bem recentemente

Algo horrível aconteceu

Em cima de um papelão

Um menino adormeceu

Foi quando alguém gritou

Quando o trator então passou

E o menino ali morreu.

29. Seu moço eu lhe afirmo

Essa historia não se encerra

Viver dentro do lixão

É como estar numa guerra

Pois muita gente ali

Um dia teve que sair

Como nós de suas terras.

30. Depois da morte do menino,

Muita historia se falou

O prefeito disse coisas

Que a imprensa divulgou

Dizendo o lixão acabar

E da vila Emater retirar

O povo que lá ocupou.

31. Centenas de famílias

Mora na Emater dois

Se o estado é ausente

O prefeito lá nunca foi

Mas quando se fala em resolver

O problema do lugar

Logo querem retirar

O povo como se fosse boi.

+++++++++++++++++++++++++

(ATO 3)A LUTA E A ESPERANÇA DO POVO

32. Mas nada estar pedido

Pra nossa situação

Graças a Deus existem amigos

Gente de bom coração

Que chegam para ajudar

Fazendo a gente lutar

E ter na luta outra visão.

33. Temos La dona Tereza

Que é a nossa parteira

Seu Gomes um grande amigo

Gente boa e ordeira

O CEASB nem se fala

É uma ONG orientadora

Para que nosso povo

Seja uma gente vencedora.

34. Temos a cooperativa

E a nossa associação

Também um ponto de cultura

Pra promover nossa união

E a criançada tão pura

Tem no baú de leitura

Aprendizado e animação.

35. Hoje já ta diferente

Existe mais formação

Temos parceiros atentos

Na conscientização

Somos guerreiros de verdade

Pra viver fraternidade

Com saúde e educação.

36. E por falar em saúde

Quase ninguém acredita

Que uma medica voluntária

Que se chama Rosa Rita

Ao se sensibilizar

Com a nossa situação

Tem cuidado bem da gente

Nos tratando como irmãos.

37. Por isso hoje somos gratos

A quem acredita na gente

Aqueles que lutam conosco

Ficando também na frente

Nos dando força e energia

Para que no dia a dia

Tudo seja diferente.

38. Essa luta minha gente

Vai ter que continuar

Pois com a força de todos

Que vierem ajudar

Continuaremos com fé

Fazendo a vila Emater

Essa historia mudar.

(Todos:)

Zumbi deixou em Palmares

Um exemplo de luta e glória

Seu amor à liberdade

Vive em nossa memória.

E o Guerreiro da Vila Quer

Construir com muita fé

Sua vida, sua história!

VALEU ZUMBI!

Nenhum comentário: