sábado, 27 de novembro de 2010

Refletindo o tema da 23ª Romaria: “Menos Terra Concentrada, Mais Famílias Assentadas”

Por: Carlos Lima
Historiador e Coordenador da CPT-AL


Um velho careca (calvo) construiu um porto no rio... Assim, segundo a lenda, nasceu o nome da cidade de Porto Calvo. Terra de Calabar e a do rei Zumbi. Também foi em Porto Calvo que começou o Cristianismo católico em Alagoas, sob as bênçãos da Virgem da Apresentação, senhora da Igreja e mãe dos empobrecidos, serva de Deus e educadora da fé.

Neste município de muita história e pouca memória, já no século XVI existia como freguesia, fundado por Cristóvão Lins, responsável pela introdução da cana de açúcar e dos primeiros engenhos - Escurial, Maranhão e Buenos Aires - que duraram quatro séculos e foram substituídos pelas atuais usinas.

Para instalar a cultura branca e produzir cana de açúcar, os portugueses e seus representantes tiveram que expulsar os índios de suas terras e utilizar a mão de obra escrava nos canaviais, assim surgia o processo de concentração da terra, sinônimo de riqueza para algumas famílias e de miséria para a população. Este modelo de produção que nasceu em Porto Calvo, se expandiu em todo o Estado adotando a pólvora e a chibata como instrumentos para liberar o caminho de transformar Alagoas num imenso canavial (65% da área cultivada é de cana).

O processo de concentração da terra como uma imposição colonial e uma injustiça praticada em nosso país, criou um abismo social e destruiu a natureza (matas, rios e nascentes). Este duro golpe dado pelas elites contou e conta com o apoio de Instituições, transformando a terra e as pessoas em mercadorias, preservando os patrimônios e desprezando o ser humano. Ofendendo o Criador e a criação.

A CPT acredita e vem trabalhando em Alagoas na organização e mobilização dos empobrecidos do campo para modificar as estruturas e restaurar a criação. Apoiar as ocupações de terra e fortalecer os assentamentos é missão nossa e de todos e todas que acreditam que a terra é um bem comum e social e que deve cumprir a sua função: produzir alimentos sadios em sintonia com a natureza e garantir renda para as famílias camponesas.

Sendo fiel ao Deus libertador, apoiados na memória dos Quilombolas de Palmares e com a proteção de Nossa Senhora da Apresentação, vamos continuar clamando e lutando para que a terra seja partilhada e que mais famílias sejam assentadas.

“Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e de amar!”

 (Dom Pedro Casaldáliga)

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