sábado, 4 de dezembro de 2010

Carta ao governador de Alagoas sobre as reintegrações de posse

Excelentíssimo Senhor Governador Teotônio Vilela Filho,


Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo,
até que não sobre mais espaço e sejam
os únicos a habitarem no meio do país. (Profeta Isais )



Alagoas é um estado pequeno, marcado pelo abismo que separa alguns ricos da maioria absoluta da população, as desigualdades sociais em Alagoas são comparadas às dos países paupérrimos do continente africano, segundo o professor Fernando Lyra no seu livro “Crise, Privilégio e Pobreza”. É na concentração da terra que encontramos o motivo desta extrema pobreza.

A elite canavieira alagoana, além de concentrar a terra e a renda nas mãos de poucas famílias, há mais de quatro séculos dita as regras e impõe ao povo sofrimento e miséria. Ao longo dos anos capturou o Estado e coloca este ente a serviço dos seus negócios particulares em detrimento da população.

Aos poucos, com a organização popular e o envolvimento de setores intelectualizados da sociedade, o Estado tem sido forçado a garantir direitos aos empobrecidos. Entre as conquistas no campo de Alagoas podemos afirmar o provimento 11/99 do Tribunal de Justiça de Alagoas, que criou condições objetivas para evitar a violência e o derramamento de sangue dos sem terra, nos cumprimentos das reintegrações de posse.

O provimento reza que as entidades de direitos humanos e as organizações envolvidas com a organização do acampamento em conflito devem ser avisadas com antecedência, e que o diálogo seja valorizado ao extremo para evitar a violência.

No entanto, no vosso governo percebemos uma mudança no comportamento do Centro de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar, que em desrespeito frontal ao provimento, tem chegado aos acampamentos de surpresa, acompanhado do policiamento local e do BOPE e pressionado as famílias a deixarem o local. Esta situação aconteceu no acampamento Campos em São José da Laje, no acampamento Bom Destino em São Miguel dos Milagres e hoje (02/12), na fazenda Oriente, no município de Messias pertencente ao Grupo Utinga Leão, denominado acampamento Pachamama.

No despejo das famílias acampadas na fazenda Oriente, promovido pelo Estado de Alagoas, pelo governo de vossa excelência, fica cristalizado que os sem terra pouco valem diante de algumas touceiras de soca de cana. É deprimente ouvir o relato dos camponeses dizendo que a polícia deu proteção aos funcionários da usina Utinga Leão para destruir os barracos e lavouras dos agricultores. Destruir “casas” e alimento num estado como o nosso, no qual 56% vive na miséria e onde milhares de famílias foram desabrigadas, vítimas das chuvas que caíram no mês de junho, é clamar contra o céu.

Este procedimento lamentável, condenável e covarde do ESTADO, representado no ato pelo Centro de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar, pode retroceder o diálogo entre os movimentos dos camponeses e o governo e criar outro esboço no cenário da luta pela terra no campo de Alagoas.

É urgente que Vossa excelência tome as medidas necessárias para evitar que sangue seja derramado e que o Estado volte a ser o braço armado do latifúndio alagoano.



Maceió, 02 de dezembro de 2010.


José Carlos da Silva Lima
Coordenador Estadual da CPT-AL


“O reinado sobre o mundo pertença ao nosso Senhor e ao seu Cristo e ele reinará para sempre e chegue o tempo em que serão destruídos os que destroem a terra” (Apoc. 11,15.18).

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