segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Educadoras do campo estão há doze meses sem receber


 O processo administrativo está passeando pelas salas da Secretaria Estadual de Educação, enquanto isso, a CPT-AL ajuda as professoras das escolas itinerantes que passam por dificuldades financeiras


Por: Helciane Angélica - Jornalista/CPT-AL


“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, disse um dia Nelson Mandela, uma das lideranças mais expressivas e respeitadas no mundo. Esse pensamento é o que move quatro educadoras do campo que atuam em escolas itinerantes nos acampamentos Mumbuca, Santa Cruz , Bota Velha (todos em Murici) e o pré-assentamento Rio Bonito (Flexeiras), áreas da reforma agrária localizadas na zona da mata de Alagoas que são acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra. Porém, elas estão há um ano sem receber o pagamento pelo serviço executado, devido à morosidade do Governo em repassar os recursos financeiros.

Cerca de 60 crianças que moram em áreas da reforma agrária de difícil acesso estão tendo a oportunidade de serem alfabetizadas e aprendem noções de cidadania nas escolas itinerantes, que possuem ensino regular em salas de aula multi-seriadas (1° ao 5°ano), com a execução de provas, pesquisas e trabalhos em grupo, além disso, existem os relatórios de trabalho e diário de classe que são encaminhados para as escolas pólos nas cidades.

As educadoras afirmam que existe um total descaso do Governo, nesses doze meses, as aulas estão acontecendo normalmente e mesmo que o acampamento mude de local as ações continuam. Elas também afirmam que a reestruturação da Secretaria Estadual de Educação e Esporte (SEE), onde a Gerência de Educação do Campo (Geduc) foi extinta e suas demandas passaram a incorporar a Gerência da Diversidade (educação do campo, quilombola, indígena, diversidade étnica e sexual) só tem contribuído para o descrédito da formação na área rural.

O processo administrativo 11.216/09 deveria repassar os salários das educadoras e também viabilizar a implantação de mais duas salas de aula, onde atenderiam 85 crianças no sertão de Alagoas. O documento foi aprovado pela Procuradoria Geral do Estado (PGE), a prestação de conta concluída e já deveria ter sido aprovado, porém os gestores alegam que o está passando pelo trâmite legal. Agora, encontra-se na SEE, onde já passou pelo setor financeiro e percorreu várias salas, mas a Gerente da Diversidade Irani Neves ainda não informou quando os recursos financeiros serão viabilizados.

De acordo com a coordenadora das escolas itinerantes da pastoral social, Madalena Oliveira, a CPT-AL ajuda as educadoras passando um valor de R$200 para amenizar o problema, mas está ficando insustentável. “A gente trabalha pela causa, sabemos da nossa responsabilidade e não queremos abandonar as crianças. Então, infelizmente, mesmo sem receber nós estamos assumindo um papel que é do Estado”, declarou.


Ações culturais

Os assentados também tentam contribuir para o desenvolvimento das escolas que também promoverá ações sócio-culturais, eles estão doando alimentos agroecológicos para serem comercializados nas feiras camponesas e da Solidariedade. Também estão sendo realizados rifas e bingos camponeses, onde todo recurso financeiro arrecadado será destinado para o projeto "Cultivando música, cultivando arte, cultivando a vida camponesa" que foi aprovado pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) em julho de 2010. 

Com a verba arrecadada nas feiras itinerantes, vamos construir um centro cultural com aulas de música, dança, teatro e até de artesanato para crianças e mulheres do complexo Mumbuca, região que abrange três acampamentos em Murici”, revelou Madalena. 

Histórico

Alagoas foi o quarto estado da federação brasileira a implantar o programa de escola itinerante. As atividades foram iniciadas em 2006 com duas turmas para as organizações favoráveis à reforma agrária, que são reconhecidas no país: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) e o Movimento Trabalho e Liberdade (MTL). 

Atualmente, as escolas itinerantes só existem em áreas da CPT e do MST, em ambos, as educadoras estão passando por problemas financeiros. As aulas acontecem nos acampamentos da reforma agrária em casas de taipa e lona, possuem carteiras, quadro e giz. O material didático é comprado pela CPT e os livros disponibilizados pelo Estado; e a merenda ofertada por escolas pólos estaduais situadas nos municípios e produzidos pelas próprias educadoras.

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