segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Assentada Maria Cavalcante relata sua experiência no Haiti


Ela participou da Brigada Dissalinis e conviveu com famílias campesinas que viviam nas montanhas localizadas no Nord Ouest



Por: Helciane Angélica – Jornalista/CPT-AL
Fotos: Arquivo da Brigada Dissalinis



A líder camponesa Maria Cavalcante, 31, natural de Flexeiras é técnica agrícola, mora no Assentamento Flor do Bosque e também participa do Movimento de Mulheres Camponeses. Ela saiu de Alagoas em março de 2009, para participar da missão solidária com o intuito de reconstruir o Haiti – país mais pobre das Américas e que foi assolado após um terremoto ocorrido em janeiro do ano passado.

Brasileiros com formação acadêmica em várias áreas foram convocados para integrar à Brigada Dissalinis, coordenada pela Via Campesina, que tinha o nome de um grande líder negro e lutador contra a escravidão e pela independência daquele país. Além de Maria Cavalcante, tinha outro alagoano, o jornalista Thalles Gomes, que foram para o Haiti no dia 04 de abril e retornaram ao Brasil no dia 22 de dezembro de 2009.

Confira a entrevista especial realizada com a assentada Maria Cavalcante, concedida à Assessoria de Comunicação da CPT-AL, onde relata os desafios enfrentados da experiência e o aprendizado sócio-político e econômico adquirido nessa missão.



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CPT-AL: Como ficou sabendo da missão no Haiti, e porque demonstrou interesse em ir?

Maria Cavalcante: Eu recebi o convite do Movimento de Mulheres Camponesas pouco tempo depois do terremoto que destruiu a capital, e com a demanda dos movimentos rurais para ajudar os camponeses do Haiti. Essa mobilização foi da Via Campesina que estar lá desde 2009. Eu demonstrei interesse em ir porque acredito na luta da classe camponesa e penso que essa luta não acontece apenas no meu Estado e país, e sim, é internacional. E eu também estava dentro dos requisitos da Via e tinha muita vontade de contribuir. Dentro da luta campesina estava pronta para o que desse e viesse, de início disse logo que sim, mas depois fiquei preocupada com o meu lote e o trabalho. A CPT disse que se era isso que eu queria, não teria nenhum problema e eu poderia ir tranquila. Então eu decidi ir mesmo, porque a luta era bem maior, mesmo com as dificuldades para tirar o passaporte em tão pouco tempo e problema de transporte.


CPT-AL: Você passou um mês em treinamento na Escola Nacional Florestan Fernandes em São Paulo, quais foram os principais conhecimentos adquiridos?

MC: Tivemos formação para aprender a língua que é o crioulo, a mais utilizada pelos camponeses. Foi muito difícil porque sou uma camponesa e nunca aprendi um idioma, e achava que não ia aprender nada. Mas, era muito importante pelo menos dizer o nome, lugar e o movimento que estava representando. Se a gente não aprendesse o idioma ficaria muito ruim o relacionamento com os camponeses e dificultaria para compartilhar os conhecimentos. Então aprendi logo: MWEN RELER MARIA, MWEN SOTE NAN PIY BRESIL, MWEN PATICIPE NAN MOUVMAN FANM PEYZAN (eu me chamo Maria, eu venho do Brasil e participo do Movimento de Mulheres Campesinas). Também aprendi bastante sobre a geografia, a história e como funcionava o movimento camponês haitiano. Fizemos oficina prática de como fazer cisternas porque lá no Haiti iríamos ajudar na construção das cisternas que foram compradas pelo Governo da Bahia e que a Via Campesina ficou responsável em implantar.




CPT-AL: Quantos brasileiros fizeram parte da missão e quais as instituições representadas?

MC: Ao todo eram 31 brasileiros. Tinha técnico agrícola, agrônomo, médico, professor, veterinário e também pessoas que eram militantes e com vontade de contribuir. Tinham representantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB), Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD).



CPT-AL: Ao chegar no Haiti, qual foi a sua sensação?

MC: Quando a gente estava aqui (Brasil) foi preparado para quando chegasse no Haiti, mas como o terremoto ainda era recente, ficava a imagem do que eu estava passando na Tv. A gente já tinha sido informado que não iria trabalhar com os atingidos no terremoto, e sim, com os camponeses. Assim que nós sobrevoamos com o avião da FAB pela capital, vimos toda a destruição e um guia ia informando. Mas até hoje, um ano depois, a gente ver muita coisa destruída e muito lixo, e o aeroporto initulizado. A gente ficou três dias em Porto Príncipe, tivemos uma análise de conjuntura realizado por dois brasileiros que já estavam no país há muito tempo e preparam a nossa chegada. Depois, fizemos outras visitas e eu ainda não sabia nada de crioulo, e me impressionei bastante porque tinham muitos haitianos que falavam espanhol, inglês, francês e ainda o crioulo.



CPT-AL: Onde você se instalou?

MC: Ficamos instalamos no Estado chamado Lartibonite (Artibonite em francês) e ficamos na cidade Pte Rivière, onde funcionava o centro da Brigada Dissalinis que era uma casa com dormitórios, refeitórios, cozinha e uma área com um pouco mais de um hectare onde eram realizados os experimentos. Nós levamos muitas sementes para serem testadas e saber quais poderiam se adaptar na região. Estudamos novamente vários pontos importantes e conhecemos um pouco mais sobre a atuação da Via Campesina no Haiti. A gente não saia, só quando era para participar de um evento mais específico, ficamos um mês para ter uma adaptação em relação à alimentação e também para fazer um planejamento melhor das ações. Depois eu fiquei sozinha no Nord Ouest, em contato com as famílias e conheci na prática a realidade camponesa. Depois voltamos para a Brigada para fazermos um seminário, a avaliação e fazer um novo planejamento durante três a quatro dias no Centro e retornávamos.


CPT-AL: Em relação à questão agrária naquele país, que pontos positivos e negativos chamaram a sua atenção?

MC: O Haiti é um país caribenho, do tamanho de Alagoas e faz divisa com a República Dominicana. Foi o primeiro país da América a ter a sua independência da França em 1804, por negros ex-escravos e acima de tudo camponeses. Tem mais de 65% de camponeses e são extremamente pobres, e a média é cada família ter meio a dois hectares de terras, e os que tinham acima disso eram considerados grandes. Não existe reforma agrária no Haiti, muitas terras são do Estado e os camponeses usam para plantar, mas não tem assistência técnica e eles produzem da maneira que pensam. O solo está totalmente degradado porque tem somente 3% da sua vegetação e como 75% é de montanha, todas aquelas árvores foram desmatadas. Então a chuva cai, não é absorvida pelo solo, sai escorrendo e vai direto para o mar levando toda a matéria orgânica. Além disso, chega a chover 1.400mm por ano e tem constantemente fenômenos naturais como ciclones. O não sucesso da produção agrária é a falta de água e os camponeses são os que mais sofrem, os que moram nas montanhas não tem dinheiro para comprar um botijão para armazenar, não tem água potável nem condições de comprar, e eles se viram como podem. Não existe soberania alimentar no país e alguns dados dizem que mais de 60% da alimentação vem de fora, por exemplo, a galinha de granja e os ovos vêm da República Dominicana e a farinha de trigo dos EUA. Tem camponês que comem duas vezes ao dia, tem alguns que apenas uma vez, e outros a cada dois dias. E isso são coisas que não aparecem na televisão, e as pessoas só conhecem o país depois do terremoto e os problemas acontecem há muito tempo e é um país que não tem autonomia. São as mulheres que fazem as feiras e atuam no comércio, que transporta na cabeça os alimentos e produtos que trazem das montanhas. O país sofre sem energia, e o carvão é o combustível, é a matriz energética e uma das causas do desmatamento, mas os camponeses não têm outra alternativa.


CPT-AL: Quais foram as principais atividades realizadas pela Brigada no Haiti?

MC: Nós atuamos em quatro linhas de ação. A implantação de 1382 cisternas para garantir a captação da chuva, que foram distribuídas pelos movimentos KAT JE e outros menores. Também teve reflorestamento, entrega das sementes e formação para os camponeses. A KAT JE conhecida por “quatro olhos”, na verdade, eram os quatro principais movimentos rurais (MPP / TÉT KOLE / MPNKP / KROS), nós do Brasil mostrava quais as ações podiam desenvolver com contribuição técnica para ajudar na reconstrução do país e eles diziam as principais demandas. Depois, em conjunto, definiam o local e os especialistas eram distribuídos em todo o país.


CPT-AL: Como os camponeses haitianos trataram os brasileiros da Brigada?

MC: O primeiro contato com aqueles que não eram do Haiti, eles chamavam de “BLA” porque achava que a gente era rico e branco. Mas, eles recebiam a gente com muito carinho, e quando a gente saia faziam de tudo para nos proteger. Eles acolhiam muito bem, eles repartiam tudo, ofereciam aquilo de melhor que eles tinham. A gente construiu um laço de amizade e muitos deles pediam para a gente não voltar para o Brasil. Um diferencial da Brigada é que conhece realmente o país, fala a língua deles e tem uma relação bem melhor.


CPT-AL: Sobre os aspectos sócio-culturais no Haiti, que aprendizados você adquiriu irá compartilhar com os acampados e assentados no Brasil?

MC: O que mais me chamou atenção foi a religião Vodu que muitos haitianos praticam. A gente poderia comparar um pouco com o Candomblé aqui do Brasil. Gostei muito do Vodu porque tem uma mística campesina, tem momento de união e músicas. Tem benzedeiras e os ugãs que têm o conhecimento das plantas, que atua como se fosse um médico da comunidade. Eu vi uma relação muito forte com a terra. As danças são muito envolventes e tem forte ligação com a Mãe África, e muitos especialistas dizem que muitas tradições que existem no Haiti não tem mais lá. Nos velórios os camponeses cantam muito e até cantam o hino da bandeira. Não existe escola pública no país porque todas as escolas são controladas por várias igrejas, principalmente, da Igreja Católica. A base alimentar deles é o arroz, milho, pitmi (sorgo), banana, macaxeira e abacate. E somente 1% da população são de ricos.


CPT-AL: Na sua opinião, que importância a Brigada Dissalinis teve no Haiti?

MC: A Brigada teve grande importância, levou as experiências e o desenvolvimento da agroecologia e o Brasil ainda cooperou com o envio de sementes e apresentou as ferramentas adequadas para o trabalho. Inclusive, estão sendo construídos projetos para melhorar essas questões. Levou técnicos para contribuir na discussão e formação, além de investir na solidariedade entre camponeses de outros países.




CPT-AL: Para finalizar, que mudanças a missão no Haiti trouxe para a sua vida?


MC: A gente não volta a mesma pessoa, entra em outra realidade, mesmo vindo de onde eu vim, onde também tem muitas dificuldades. Mas comparado aos haitianos a gente sofre pouco, no Haiti a pobreza é extrema, e ao mesmo tempo o povo acredita que a mudança é possível. É um povo que passa fome, sofre muito, mas ainda ri e continua a andar, e que precisa de mais oportunidades. É um povo de exemplo para nós e o mundo, pois consegue se reerguer! A miséria só estará presente em nossa vida até quando a gente aceitar, até quando a gente não tiver libertação. Talvez, eu fui lá para contribuir, mas na verdade foi o contrário, e pretendo voltar para rever os amigos e contribuir mais! É um país que tem muito a ensinar também, e o Brasil tem um papel fundamental para não oprimir e sim cooperar. Hoje considero o Haiti como a minha segunda pátria! Eu também aprendi a me conhecer melhor e a ter novos ideais, também adoeci, tive febre tifóide. A gente comia o que eles comiam, tomava banho dependendo da região. A gente foi viver realmente com eles, e agora, posso dizer realmente que conheço porque vivi tudo de perto. O Haiti não precisa de esmolas e doações, não precisa de opressão, e sim, de colaborações. Também acredito que precisa mudar a realidade camponesa desse país, senão não terá desenvolvimento e continuará dependendo de outros países. Eu só tenho a agradecer ao MMC, a CPT, os amigos camponeses daqui que me apoiou e a Via Campesina por ter dado essa oportunidade, por mais que tenha sido dura, não tem valor que pague a vivência e o aprendizado que tive.

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