sábado, 5 de fevereiro de 2011

Arcebispo de Alagoas apóia a luta dos sem terra despejados

No mês passado, cerca de 200 famílias sem terra foram despejadas de terras consideradas improdutivas e a Arquidiocese de Maceió divulgou nota pública em solidariedade
  
A nota foi lida durante a Santa Missa na Igreja São Gonçalo. (foto: Helciane Angélica)




Na manhã deste sábado (05.02) durante a santa missa que antecedeu mais uma edição da Feira da Esperança e da Solidariedade em frente à Igreja São Gonçalo no bairro do Farol em Maceió, o Arcebispo Dom Antonio Muniz assumiu publicamente o apoio às famílias camponesas de diversos acampamentos dos movimentos rurais, inclusive da Comissão Pastoral da Terra, que estão sendo ameaçadas de despejo em Alagoas.

No mês de janeiro foram retiradas cerca de 200 famílias de terras consideradas improdutivas e vários hectares de alimentos foram destruídos, de áreas onde os camponeses já vivem em comunidade por mais de cinco anos. A Arquidiocese de Maceió também declarou apoio às 102 famílias camponesas do Acampamento Bota Velha no município de Murici, que é acompanhado pela CPT-AL desde 2002, e poderia ser transformado em assentamento, já que possui escola, capela, casa de farinha, açude, casas com energia elétrica e boa produção. A reintegração de posse foi concedida pelo Juiz Agrário Ayrton Tenório e estar prevista para acontecer no dia 21 de fevereiro, e os camponeses não tem para onde ir. 

A nota de solidariedade às famílias camponesas sem terra foi lida para os fiéis presentes no encerramento da cerimônia religiosa. Confira abaixo na íntegra a CARTA DA TERRA da Arquidiocese de Maceió:

Nota de solidariedade às famílias camponesas sem terra


“...Construirão casas para nelas habitarem, plantarão videiras e comerão seus frutos... Os meus eleitos comerão eles mesmos o fruto do trabalho de suas mãos...” (Isaías 65,17-25)

A Arquidiocese de Maceió vem a público externar a sua mais profunda solidariedade com as famílias sem terra que vem sendo vítimas de despejos violentos por parte do Estado.
A nossa solidariedade é alicerçada nos diversos documentos da Igreja, a partir do Concílio Vaticano II, convocado 1961, que inspirou a Igreja a fazer opção preferencial pelos pobres. Durante décadas estamos acompanhando o grito do povo do campo por reforma agrária ampla e massiva. Temos condenado a concentração da terra e apoiado as iniciativas que caminham na plena realização da Reforma Agrária. "Deus destinou a terra, com tudo o que ela contém, para o uso de todos os homens e povos" (Concílio Vaticano II na “Gaudium et Spes”, dezembro de 1965)
            A Reforma Agrária defendida pela Igreja, iluminado pelo Concílio Vaticano II, é sob égide da destinação universal dos bens, o que fica bem claro no documento intitulado para uma melhor distribuição de Terras: o desafio da reforma agrária (dezembro de 1989) no qual se refere a esses bens da seguinte forma: "O direito ao uso dos bens terrenos é um direito natural, primário, de valor universal: não pode ser violado por nenhum outro direito de conteúdo econômico"
           
            Entendemos e temos nos manifestado reiteradas vezes que o latifúndio e a concentração de terra ferem o tecido social e impedem que mais famílias tenham acesso ao uso da terra. O latifúndio é "escandaloso", sinal de "desordem" e "ilegítimo". Cria "obstáculos ao desenvolvimento econômico” (documento Para uma melhor distribuição de Terras: o desafio da reforma agrária, janeiro de 1998).
            Em “Questão Agrária no Início do século XXI”, publicado em agosto de 2010, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reafirma a sua total compreensão da questão agrária no país e chama atenção para importância de uma leitura histórica para entender uma nova face de um velho problema. O documento afirma que a vocação dos agricultores familiares e camponeses – que sobrevivem à margem do modelo dominante – é respeitar a natureza, produzir bens saudáveis, gerando segurança alimentar e sustentabilidade ambiental para toda a população.
            Queremos neste momento difícil pelo qual passam os camponeses sem terra em Alagoas (em janeiro foram despejadas cerca de 200 famílias) ser solidários com as 102 famílias acampadas em Bota Velha, em Murici, onde vivem desde 2002 e que estão sendo ameaçadas de sofrerem despejo no próximo dia 21 de fevereiro. Essas famílias constituíram comunidade, com o suor do rosto e com esforço das mãos calejadas ergueram escola, capela e uma casa de farinha, produzem alimentos sem agrotóxicos e conquistaram energia elétrica. É inaceitável não considerar esta situação estabelecida!
            Acreditamos que o bem comum deve ser incentivado, preservado e praticado pelos bons governos. Atenta contra o céu desalojar famílias e destruir alimentos, em particular em nossa amada Alagoas, tão sofrida e carente de comida na mesa de grande parte da população.
            Apelamos pelo diálogo e o não uso da violência contra os mais fracos, que historicamente foram usurpados dos seus direitos. Estaremos vigilantes para evitar que mais uma injustiça seja cometida contra os empobrecidos da terra.
            Conclamamos os católicos e católicas a se mobilizarem e manifestarem apoios aos “pequenos da terra”, os prediletos de Deus. Vamos construir possibilidades que preservem o direito das famílias de continuarem plantando em Bota Velha, além de evitar que vidas sejam feridas e que famílias sejam desprezadas e jogadas ao relento e as incertezas de pontes, rodovias e periferias.
             
O governo que não faz reforma agrária não tem moral para denunciar ou reprimir as ocupações. (documento Para uma melhor distribuição de Terras: o desafio da reforma agrária, janeiro de 1998)

Dom Antonio Muniz Fernandes, O. Carm.
Arcebispo Metropolitano de Maceió

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