quarta-feira, 13 de abril de 2011

Carlos Lima participa de debate sobre Ditadura Militar no Brasil

O representante da CPT-AL abordou o tema “As ligas camponesas e a repressão no campo”


Texto e fotos: Helciane Angélica – Jornalista/CPT-AL


Na noite de ontem (12.04), o Movimento Resistência Popular, promoveu um debate no auditório do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes (ICHCA) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para universitários de vários cursos, estudantes secundaristas e representantes da sociedade civil. A atividade teve como tema central “Nossa memória não esquece, isso ainda acontece”, para relembrar a luta ideológica-armada durante a ditadura no Brasil e o direito à verdade, além da abertura dos arquivos da época.

Foram convidados para aprofundar as discussões o cientista político e Prof. Dr. Alberto Saldanha que fez um apanhado histórico sobre o Golpe Militar em 1964 e abordou sobre as pesquisas atuais; o historiador e coordenador da CPT, Carlos Lima, que falou sobre as ligas camponesas e a repressão no campo; e o estudante de Ciências Sociais, Henrique Bezerra, que ressaltou o papel do movimento estudantil.

O professor Alberto Saldanha destacou que o Golpe Militar foi realizado por uma elite pensante, onde afirmava que buscava um país melhor. O Brasil é o único país no mundo que sofreu com a ditadura civil-militar e ainda não tem um arquivo com dados consistentes. Também mencionou que atualmente o crime de tortura é considerado um crime contra a humanidade, e em 2010, foi defendido um projeto de Lei para criar a Comissão da Verdade com o intuito de aprofundar as pesquisas, além de ampliar a investigação sobre pessoas torturadas e desaparecidas. Já Henrique Bezerra, afirmou que a política autoritária resultou na herança do medo presente até os dias atuais, mas também, possibilitou uma expressiva articulação estudantil por liberdade de expressão e justiça social, além da luta armada na década de 60.

Carlos Lima iniciou sua palestra exaltando que a luta dos povos camponeses é histórica, a exemplo da resistência negra no Quilombo dos Palmares. E o Partido Comunista avaliava o campesinato como força auxiliar. As ligas camponesas surgiram no Nordeste brasileiro, principalmente no Estado de Pernambuco, onde existia uma forte mobilização e realização de congressos, que também estabelecia o diálogo entre as pessoas da cidade, estudantes, pescadores e movimentos de operários. Em 1962, foi lançado o jornal “A Liga” que abordava sobre a organização e o futuro, a importância da reforma agrária, além de implantação do socialismo no Brasil a partir do campo, o que gerou atritos com o movimento comunista.

A partir de 1963, inicia a discussão sobre a possibilidade de fundar um partido político dos camponeses, justamente, por ter cerca de 100.000 camponeses organizados e representando uma força significativa. No ano seguinte é criada a Federação das Ligas Camponesas defendendo que as áreas próximas as rodovias acima de 1000 hectares de terra seriam desapropriadas, mas ao mesmo tempo iniciaram as perseguições durante o Golpe Militar. O movimento volta a se rearticular em 1975 com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Goiânia (GO) e depois se espalhou por outros estados, prestando assessoria aos povos camponeses e ribeirinhos, além de defender os direitos á água, terra e cidadania. Em 1984, as ocupações se fortalecem e é criada uma organização formada pelos próprios camponeses: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O debate também fez uma reflexão crítica sobre a atuação dos grandes meios de comunicação e o vínculo com latifundiários e políticos, o que impossibilita a revelação das explorações e os problemas enfrentados no campo a exemplo: do trabalho escravo, expulsão do campo (êxodo rural), envenenamento das águas próximas aos acampamentos e assentamentos da reforma agrária, agressões, dentre outros. “Quem tem terra, tem poder e é respeitado. Acredito que se perguntasse a população se querem que o Estado plante cana ou alimentos, com certeza, a segunda opção venceria”, destacou Carlos Lima.

No encerramento da explanação, foi exibido o documentário “Lucena” sobre a resistência das famílias camponesas na Fazenda Lucena em Porto de Pedras. A ocupação na área improdutiva ocorreu no dia 31 de dezembro de 2002, após quatro anos acampados e mesmo com a autorização do Tribunal de Justiça Federal determinando a permanência, o Governo de Alagoas exigiu a reintegração de posse. O despejo violento contou com um ostensivo número de militares (Polícia Militar, Cavalaria e BOPE), além de bombas e tiros com munições verdadeiras. As famílias foram expulsas, tiveram os barracos queimados, roça destruída, documentos queimados, além de animais mortos. Mas, à noite, as famílias retornaram e reconstruíram os barracos e alguns meses depois conseguiram a imissão de posse, estão até hoje na área que foi transformada no Assentamento Irmã Dorothy Stang.

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