quinta-feira, 9 de junho de 2011

Abertura da 14ª Feira Camponesa é marcada pela presença de autoridades

O projeto é promovido pela Comissão Pastoral da Terra e segue até sábado às 14h, na Praça da Faculdade em Maceió

Texto e fotos: Helciane Angélica - Jornalista/CPT-AL

Há oito anos é difundido no Estado de Alagoas o lema “Plantar, colher e repartir” pela Comissão Pastoral da Terra e nesta quinta-feira (09.06) começou a 14ª Feira Camponesa, na Praça da Faculdade em Maceió, que segue até sábado às 14h. A cerimônia de abertura foi marcada pela presença de várias autoridades locais, parceiros na luta por vida digna no campo e, também, estiveram representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

A assentada e técnica agrícola Maria Cavalcante iniciou os trabalhos com uma mística reflexiva sobre a importância dos alimentos agroecológicos, ou seja, com maior poder nutricional e sem a inclusão de agrotóxicos que trazem prejuízos para o meio ambiente. Ela também aproveitou para cantar músicas que refletem a luta dos sem terra e valorizam a Terra Mãe.

Em seguida, foram iniciados os pronunciamentos oficiais, e o primeiro a falar foi Josival Oliveira, Coordenador do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), que destacou o diferencial das feiras agrárias, “Toda feira pode ser parecida, mas não é igual, ainda mais se for comparada com as que são promovidas pelos movimentos rurais. As nossas feiras além de vender, forma e informa; os trabalhadores tem uma postura diferente em relação a consciência política, a organização, limpeza e na forma de se apresentar aos clientes”, declarou.

Já Claudio Rodrigues Braga, representante da Comissão Nacional de Combate a violência no campo, destacou que a missão da Comissão é atuar em defesa dos pequenos e dos pobres, além de reforçar que a agricultura familiar é sucesso, democracia e solução para combater a fome no país.

O Diretor de Obtenção de Terras e Implantação de Projetos de Assentamento, Luciano Brunet, informou aos presentes que existem 900 mil famílias camponesas assentadas registradas pelo Incra Nacional e que cerca de 85% das pessoas no Brasil vivem hoje nas cidades. “Quem produz a maioria dos alimentos são os agricultores familiares e precisamos investir em políticas públicas permanentes para divulgar o trabalho e escoar a produção. É preciso investir em parcerias com as prefeituras e, também, tem o grande desafio de transformar a agricultura familiar como uma profissão realmente”, afirmou.

O Desembargador e Ouvidor Agrário Nacional do Incra, Gercino Filho, aproveitou a ocasião para parabenizar o projeto da Feira Camponesa que existe há oito anos em Alagoas. “Nós estamos acostumados em ver o lado negativo dos trabalhadores sem terra, quando vamos nos acampamentos que não tem cidadania nem produção, e sim, existe balas [munições] e repressão. É muito importante ver o outro lado, produtos oriundos dos assentamentos, frutos da luta dos movimentos rurais e na efetivação da reforma agrária, e que trazem com honradez. Precisamos divulgar à sociedade o quanto é importante esse lado positivo”, exaltou.

COBRANÇA
Álvaro Machado, Secretário-Chefe do Gabinete Civil, iniciou seu pronunciamento destacando a satisfação que o Governo de Alagoas tem em apoiar as duas feiras anuais da CPT-AL e as dos outros movimentos em Maceió. Ele também aproveitou a ocasião, para fazer suas críticas em relação ao Incra que não realiza um investimento maior dessas ações.

O sucesso da feira é reconhecido por todos, cada edição possui mais camponeses, mais barracas e mais produtos. E aqui em Alagoas, o apoio tem sido realmente do Governo, onde deveria ser apenas uma complementação para potencializar o evento. O Incra deveria investir mais e fica o apelo aqui, aos representantes nacionais presentes, para que o Incra coloque essa demanda no orçamento”, provocou Álvaro Machado.

O assentado José Feliciano, conhecido por Saúba, aproveitou a abertura do evento também para fazer duras críticas sobre a forma de tratamento dado ao povo camponês. “Existe violência mais forte do que a bala e o conflito agrário, do que a opressão da polícia. Tem mãe de família que precisa andar várias léguas, com uma criança no colo chorando de dor para ir até um posto médico. Outra violência, os produtos que estão aqui, veio em cima de um cavalo para ir até o caminhão, depois o caminhão atolou, e ainda é parado várias vezes na estrada até ser multado. E tem muitas outras formas de violência com os camponeses, a falta de escolas próximas dos assentamentos, e como vamos conseguir progredir?”, desabafou o agricultor.

RECONHECIMENTO

O Coordenador Estadual da CPT-AL, Carlos Lima, relembrou que a primeira Feira Camponesa ocorreu com 25 barracas e nesta edição tem 95, a variedade é de mais de 90 produtos oriundos de 20 áreas em 18 municípios alagoanos. “O reconhecimento é uma demonstração de um processo que é crescente. Esse semestre é para as feiras agrárias, em junho tem a da CPT, em setembro do MST, outubro tem outra da CPT, novembro do MLST e já existe um ‘zum zum zum’ de fazermos uma conjunta em dezembro”, destacou.
A oportunidade também serviu para realçar a importância da verdadeira reforma agrária. “A reforma agrária tem que vir acompanhado com energia elétrica, água de qualidade e estradas de acesso. Tem que dar as condições para produzir! Dos 17 assentamentos que nós acompanhamos, só dois tem água encanada, o restante, as pessoas bebem da fonte, do rio onde os grandes fazendeiros e usineiros poluem e até envenenam com tanto agrotóxicos nas plantações. E se a gente não alcançar a dignidade humana, essa luta será em vão”, disse.

No encerramento da cerimônia, as autoridades presentes (gestores públicos, sindicalistas, Gerenciamento de Crises da Polícia Militar de Alagoas, representantes parlamentares, etc) além dos representantes da imprensa alagoana tomaram um café camponês totalmente nordestino. E os representantes do Incra também caminharam pela Feira Camponesa para conhecer a infra-estrutura e cumprimentar os feirantes.

Nenhum comentário: