sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Desocupação de prédio em São Paulo deixa 400 pessoas na rua


Gabriela Moncau/Carta Capital
Não houve violência policial durante a ação, mas moradores permanecem na rua

Bárbara Mengardo
Carta Capital



Um dos pontos mais famosos da cidade de São Paulo, a esquina da Avenida Ipiranga com a São João foi palco nesta quinta-feira de mais uma reintegração de posse, que deixou na rua cerca de 400 pessoas. A especulação imobiliária, que tem levado o prefeito Gilberto Kassab a autorizar a retirada de milhares de pessoas de suas casas, tem se tornado a nova marca da cidade, mudando em muito o cenário descrito por Caetano Veloso na música "Sampa", de 1983.
Entulho e ratos
Cerca de 230 famílias ocuparam o prédio de três andares na famosa esquina há três meses; o imóvel estava abandonado há cinco anos. “Aqui funcionava um bingo, mas depois da lei que desativou os bingos, ele ficou fechado” conta Osmar Borges, da Frente de Luta por Moradia.
Segundo moradores, antes da ocupação o prédio era lotado de entulho, além de ser cheio de ratos e baratas "A gente não sabia o que estava esperando, a sujeira, ratos mortos, fios desencapados, canos quebrados. Nós limpamos tudo, foram dois meses de luta para limpar" diz a costureira Petrolília Almeida, que optou pela ocupação após ser despejada de sua antiga casa por não poder pagar o aluguel, de R$ 500. Com a desocupação, ela afirma não saber onde irá morar.
Garrafadas
Desde antes das 5h, horário agendado pela polícia para começar a desocupação, os moradores já protestavam nas janelas do prédio, gritando palavras de ordem e batendo garrafas de plástico. Todos os pertences estavam arrumados dentro dos quartos, mas ninguém sabia para onde iria após a chegada da polícia. Dias antes, funcionários da prefeitura foram até o local e coletaram os nomes de todos os moradores, mas não garantiram que eles iriam para algum abrigo ou participariam de algum programa habitacional após serem despejados do imóvel.
Minutos antes da desocupação as poucas televisões existentes dentro do prédio estavam ligadas nos telejornais, para saber o que os jornalistas que trabalhavam do lado de fora do imóvel diriam sobre a reintegração. Ao assistirem às primeiras cenas, os moradores se divertiram, e rindo apontavam para a tela “Olha a Rosângela, olha o João”.
Cobertura na mídia
Os comentários mudaram quando, passando para a Bandeirantes, os moradores viram imagens da ocupação feitas de um helicóptero, e ouviram o apresentador do jornal Primeiro Jornal, Luciano Faccioli, afirmando que no local só moravam usuários de drogas e prostitutas, além de ironizar: “Esse pessoal não tem uma roupa para lavar?”
Foi também neste canal que os presentes viram que, do lado de fora, uma fileira de policiais militares estava posicionada em uma das entradas do prédio.
Por volta das 9h30 da manhã ocorreu a desocupação. Os moradores se retiraram pacificamente e em seguida entraram em grupos menores para pegar seus colchões, roupas, fogões, panelas e madeiras. Carmem Silva, integrante do Movimento Sem Terra do Centro (MSTC), explica a decisão de não resistir à polícia: “Nossa briga não é contra trabalhador, e os policiais militares são trabalhadores. Nossa luta é contra o sistema capitalista e a prefeitura de São Paulo, que não tem políticas públicas de moradia para trabalhadores de baixa renda. São Paulo está à mercê da especulação imobiliária”.
Improviso
Após saírem do prédio onde viveram por três meses, as famílias fizeram, com as madeiras retiradas da ocupação, um barraco improvisado, onde pretendem ficar o máximo possível, já que muitas não têm para onde ir. Carmem avisa qual será o destino dessas pessoas: "Rua. Morar na rua ou em mais uma favela de São Paulo."




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