quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Universidade para o povo ou para os usineiros?

MARCHA POR TERRA E JUSTIÇA
NOTA PÚBLICA

Universidade para o povo ou para os usineiros?


No ultimo dia 03/11, uma coluna com mais de 2 mil homens e mulheres camponesas, organizados em movimentos sociais, partiram de Murici até Maceió, com trajetória de 60km, a serem percorridos em marcha. O ponto de partida, a cidade de Murici, é marcado pelo domínio de famílias latifundiárias no plano da política e da economia, o que lega ao todo da população, o secular destino da exclusão e exploração. De lá até o ponto de chegada, os movimentos estampam a bandeira da justiça social, com uma Reforma Agrária Popular que divida as terras e altere a realidade sócio-econômica do campo e da cidade.

Dentre vários atos que temos realizado pressionando órgãos públicos, durante a manhã desta terça-feira (05/11), os trabalhadores rurais foram recebidos com total abertura no Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas (Ceca-Ufal). Ao se confrontarem com experimentos de melhoramento genético da cana-de-açúcar, inclusive transgênicos, que beneficiam (não de hoje) os principais responsáveis pela miséria em Alagoas, grupos de latifundiários e usineiros, a massa revoltada de trabalhadores decidiu pela ação direta: destruir o que historicamente nos destrói.

O objetivo da ação política não foi um ataque à universidade ou às pesquisas acadêmicas em geral. Mas, sim, demonstrar à sociedade que os camponeses e camponesas do Brasil são contra este modelo que privilegia a monocultura exportadora, utilizando nossas riquezas naturais, nossas terras e mão-de-obra barata, destruindo o meio ambiente e produzindo trabalho escravo. Entendemos que o papel da universidade não é usar recursos públicos para pesquisas que beneficiam usineiros, mas sim, para pesquisas que construam uma alternativa de desenvolvimento para região e que possam servir à grande maioria do povo brasileiro.
Quer dizer, temos na estrutura de uma Universidade Pública estudantes, pesquisadores e laboratórios para promover ainda mais o avanço do monocultivo de cana-de-açúcar, causando a elevação dos preços dos alimentos e a concentração da propriedade da terra. Queremos alertar que a diminuição sucessiva da área plantada de alimento terá, em breve, consequências gravíssimas para toda população mundial.
Hoje a população urbana está sofrendo com a alta no preço dos alimentos e com o excesso de agrotóxicos. A agricultura familiar, responsável pela comida que chega à mesa do povo brasileiro, está sendo devorada pela ganância dos latifundiários.
A Universidade Pública deve, através da produção de ciência, servir para dar solução aos problemas do povo, como a fome, e não, ao agronegócio e ao capital financeiro, que querem transformar os alimentos, as sementes e todos os recursos naturais em mercadoria para atender os interesses, o lucro e a ganância das grandes empresas transnacionais. Portanto, que pesquisem o desenvolvimento de milho, de feijão, de macaxeira. Se os usineiros querem fazer pesquisa para aumentar seus lucros, que façam em suas terras e contratem seus técnicos.
Certamente quando a universidade pública entender seu papel social, ela poderá contribuir muito utilizando o conhecimento acumulado e os técnicos servidores públicos que se apropriaram destes conhecimentos, com recursos públicos do povo brasileiro, para a melhoria das condições de vida da maioria e a produção de alimentos saudáveis e baratos.

Não nos espantamos, entretanto, com a pobreza das coberturas midiáticas sobre o tema, particularmente as mensagens veiculadas pelos meios ligados às Organizações Globo. Ao afirmar que pesquisas foram destruídas, adotam a política de defesa do latifúndio e negligenciam a informação. O ato destruiu exclusivamente experimentos (da cana-de-açúcar) a serviço dos responsáveis pela miséria e os altos índices de desigualdade de Alagoas. Como de costume em coberturas da Mídia Convencional, a abordagem meramente factual costuma distanciar a sociedade de um aprofundamento histórico-crítico dos fatos que ora ocorrem.

A política de Reforma Agrária está estagnada, com índices de desapropriações de terras inferiores aos do período de Ditadura Civil-Militar. Enquanto isso um grande contingente de recursos tem sido repassado para o financiamento da agricultura do veneno e dos transgênicos, impulsionando o envenenamento de nossas populações e meio ambiente, o adoecimento e morte do povo e estimulando a concentração cada vez maior de riqueza.

Por fim, conclamamos a sociedade alagoana e brasileira à reflexão sobre o papel da terra e à luta em defesa dos camponeses, povos tradicionais e trabalhadores em geral, que, em movimentos sociais, ousam desafiar os projetos de poder das elites e propor um horizonte de justiça social para o Brasil.



COMISSÃO PASTORAL DA TERRA – CPT
MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO DOS SEM TERRA – MLST
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA - MST
MOVIMENTO TERRA, TRABALHO E LIBERDADE - MTL


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