segunda-feira, 17 de agosto de 2015

“Queremos ajudar aos que têm necessidades, como afirma o evangelho”


Seguidores do amor ao próximo pregado e ensinado por Jesus, um grupo de amigos da cidade Italiana de Torino criaram, em 2009, a associação Pachamama (terra mãe) para ajudar aos pobres da terra, em específico, aos camponeses que vivem nos assentamentos e acampamentos rurais acompanhados pela Pastoral da Terra em Alagoas.


Essa opção pela causa dos oprimidos se dá através da colaboração técnica e financeira, com projetos, atividades de arrecadação e propagação da missão da Comissão Pastoral da Terra na Europa, visando alcançar melhores condições de vida na terra aos camponeses pobres de Alagoas. “Eu gosto de lembrar sempre que tem muita gente que não teve a mesma sorte que eu. Por isso, queremos ajudar. Queremos uma vida digna para todos”, afirmou Emanuele Daglio, presidente da Pachamama.

Em visita ao Brasil de 28 de julho a 14 de agosto, Emanuele Daglio e Andrea Fumero, membros da Pachamama, estiveram durante 4 dias nos acampamentos e assentamentos do sertão alagoano, no assentamento Bota Velha, em Murici, e no assentamento Jubileu 2000, em São Miguel dos Milagres. Os membros da associação também participaram, junto aos movimentos sociais do campo, da ocupação do Porto de Maceió, que reivindicou a destinação das terras de três usinas do falido Grupo João Lyra para fins de Reforma Agrária.

Os representantes da Pachamama ficaram perplexos ao ver tanta terra e tanta gente semterra no Brasil e disseram: “aqui ter terra é afirmação de poder e riqueza. As pessoas dizem ‘sou muito rico porque tenho muita terra’. É muito fácil compreender que isso é injustiça e nós gostaríamos de ver um melhor trabalho do INCRA ajudando mais as famílias sem-terra e as organizações como CPT”.


Leia, na íntegra, a entrevista com os membros da Pachamama.


CPT - Em um país tão grande, como o Brasil, a Pachamama decidiu apoiar a Pastoral da Terra, em Alagoas. Como nasceu e como se mantém esse sentimento que liga a Pachamama à essa causa?

AF e ED – A Pachamama nasceu ainda em 2009 através da colaboração de 7 pessoas que já vieram à Alagoas e conheciam a associação de amigos de Joaquim Gomes. Foi aí que Omar Borio (primeiro presidente da Pachamama) conheceu Carlos Lima (CPT) e a colaboração nasceu dessa amizade.  Nosso grupo tem uma origem católica, Cristã, mesmo não sendo parte da Igreja. E nós queremos ajudar aos que têm necessidades, como afirma o evangelho. Vir ao Brasil e presenciar a situação dos camponeses e camponesas, ajuda a saber e acreditar no motivo de que temos que trabalhar junto à CPT. Gostamos de ajudar porque na Itália muita gente está bem, comparado ao Brasil. Hoje temos trabalho e temos que pensar que todo o mundo não é como a Itália. Eu gosto de lembrar sempre que tem muita gente que não teve a mesma sorte que eu. Por isso, queremos ajudar. Queremos uma vida digna para todos

CPT - Como se dá essa parceria?

AF e ED - Falando com a CPT/AL, nós criamos alguns pequenos projetos. O primeiro foi a “lâmpada de Aladim”, que levou luz portátil para os acampamentos sem energia elétrica e servia para as salas de aula e para o povo não caminhar no escuro. No segundo momento, Carlos propôs aos sócios da Pachamama, onde vários têm formação em saúde, realizar um projeto nessa área. Aí foi criado os “Semeadores da Saúde”. Nesse, buscamos na Itália material de saúde para enviar aos acampamentos que não tinham nenhuma assistência; realizamos oficinas com os coordenadores dos acampamentos para repassar dicas de higienização e outros cuidados sanitários; e também cobrar dos gestores dos municípios a devida assistência. Assim, foi possível conseguir visitas médicas e uma maior presença de agentes de saúde nos acampamentos e assentamentos.

CPT - Existem outras formas de apoio?

AF e ED - Sim! Nós temos eventos de arrecadação. Realizamos jantares brasileiro, com feijoada, mandioca, picanha. Em dezembro, no período natalino, vendemos panetone. No ano passado, com o apoio da equipe de futebol “Entella Chiavari”, da série B, que conheceu o trabalho da Pachamama, conseguimos vender 1200 para apoiar a CPT. Na páscoa, também vendemos outra sobremesa, a colomba pasquale, mas, por ter uma tradição menor do que o Natal, foram 500 vendidos.

CPT - Sobre a visita ao Brasil, soube que é a primeira vez, que você, Emanuele Daglio, veio à Alagoas. Como foi a experiência de conhecer os camponeses que lutam pela terra?

AF - Gostei muito de ver a gente alegre, simpática e aberta conosco. Conhecemos pessoas muito simples, muito pobres, mas muito generosas. Pessoas que nos mostraram, com muito orgulho, seu lote de terra conquistado a partir da luta e, que com isso, tem tido uma melhor condição de vida. É uma gente muito trabalhadora, que gosta de viver com direitos e dignidade. Também gostamos muito de ter participado da reunião com os agentes pastorais. Interessa-nos muito as atividades futuras, como a Romaria das Águas, do Sertão. Foi muito importante também, para nós, a disponibilidade, a hospitalidade e a atenção dos membros da CPT. Esse período aqui foi uma lição de vida muito importante.

CPT – Durante essa visita, vocês puderam presenciar os movimentos do campo ocuparem o Porto de Maceió. De onde partiu a decisão de participar desse ato?

AF e ED - Nós vimos o Carlinhos articulando essa mobilização e quisemos ir ao Porto de Maceió participar. Estivemos lá segunda e terça (dois primeiros dias). Foi muito interessante estar com essa gente numa situação que poderia ser muito perigosa, mas ocorreu com muita tranquilidade porque essa gente sabia que tem o direito de fazer essa luta. Deu para ver que os movimentos do campo, daqui de Alagoas, tem muita sintonia, são muito unidos.

CPT - Como vocês enxergam a contradição de o Brasil ser um país tão extenso e haver tanta concentração de terras?

AF e ED - Eu vejo como uma grande injustiça. Para nós, é muito difícil compreender que o Brasil tenha a necessidade de ter uma lei para fazer Reforma Agrária. Na Itália, não é normal um fazendeiro ter muita terra se não for para ele trabalhar nela. Só faz sentido lá ter a terra apenas que possa trabalhar. Mas aqui ter terra é afirmação de poder e riqueza. As pessoas dizem “sou muito rico porque tenho muita terra”. É muito fácil compreender que isso é injustiça e nós gostaríamos de ver um melhor trabalho do INCRA ajudando mais as famílias sem-terra e as organizações como CPT. Nós também ajudamos divulgando essa luta, porque na Europa muito mais gente passa a conhecer essa situação.

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