quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Canal do Sertão não atende ao povo pobre sertanejo

Seminário realizado em Delmiro Gouveia debateu sobre o tema e lançou a 7ª Romaria das Águas e da Terra


O canal do sertão é uma das maiores obras de engenharia hídrica do mundo, que, em teoria, pretende levar água tratada para cerca de um milhão de pessoas em Alagoas em quase metade dos municípios Alagoanos. Entretanto, o que se pode observar nesses dois anos, em que os primeiros 65 km do Canal foram inaugurados, é que sua utilidade ainda não alcançou o povo pobre do sertão, pelo contrário, só tem privilegiado os grandes proprietários de terra, consolidando o poder econômico das elites locais.

Essa discussão foi o tema do Seminário “O Canal do Sertão: para que? Para quem?”, realizado no dia 28 de agosto, no Câmpus de Delmiro Gouveia da Universidade Federal de Alagoas. A atividade foi o pontapé para a 7º Romaria das Águas e da Terra, que será realizada nos dias 26 e 27 de setembro, também em Delmiro.

Mais de 500 pessoas, entre assentados, acampados, indígenas, quilombolas, alunos da UFAL e de colégios estaduais, lotaram o auditório Graciliano Ramos para ouvir o professor e geografo Cláudio Ubiratan da UFPE, os membros do Grupo de Estudos Agrários e Socioterritoriais (GEAST), Wanúbya Menezes e Felipe Ferreira, e o monge missionário do campo, João Batista, debaterem sobre a problemática das águas no sertão.

De acordo com os estudos realizados pelo GEAST, sobre o uso das águas pela população que vivem nas proximidades do Canal do Sertão, só os grandes proprietários rurais e latifundiários estão, efetivamente, sendo beneficiados pela obra.


“Na contramão do que foi possível observar nas pequenas propriedades, assentamentos e acampamentos, em uma grande propriedade do município de Delmiro Gouveia já se vem fazendo uso do Canal de forma mais efetiva, e com uma produção monocultora de agricultura irrigada considerável, com aparatos tecnológicos muito mais avançados”, afirmou Wanúbya Menezes, mestranda em Geografia pela UFAL.

O Grupo tem se dedicado a realizar visitas aos proprietários rurais (grandes e pequenos) e estudar sua relação com obra hídrica. Eles perceberam que o projeto não atende as necessidades dos camponeses e dos sem-terra.

“Alguns poucos pequenos ou médios proprietários rurais que margeiam o Canal do Sertão nos municípios de Delmiro Gouveia e Água Branca e que conseguiram custear o equipamento necessário para desenvolver algum tipo de cultura irrigada usam o Canal de forma improvisada, devido ao alto custo dos equipamentos e a falta de assistência e orientação técnica. A situação se agrava nos assentamentos, onde são raros os casos dos assentados que fazem uso do Canal, mesmo para o consumo humano”, complementou a geógrafa.

Os demais palestrantes também foram uníssonos em defender que para alterar o destino da água do canal é necessário intensificar a luta pela terra nas suas margens. O professor e Geografo Cláudio Ubiratan da UFPE afirmou que “o canal do sertão faz parte de uma estratégia do capital. O canal encontra-se dentro de um projeto maior, o mesmo da transposição das águas do Rio São Francisco”.

Por sua vez, o monge João Batista enfatizou que a água e bem da humanidade.  “Devemos prezar pela vida dos mais pobres. Estamos diante de uma obra bilionária que não tem melhorado as condições de vida do povo, permitindo um maior acesso à água. Isso nos faz lembrar que também nesse projeto o povo não foi ouvido. Mas, agora, é precisamos lutar para garantir o nosso direito”, concluiu o monge.

Definições

O Seminário concluiu que é preciso a união e organização de vários setores da sociedade na defesa da agricultura camponesa e das águas.  Nesse sentido, a CPT, a UFAL, a paróquia nossa senhora do Rosário, os indígenas, os quilombolas e os assentados conformarão um comitê popular e redigirão de um manifesto sobre o tema. O comitê realizará sua primeira reunião no próximo dia 10, às 14h30, no salão paroquial de Delmiro Gouveia. 

Quanto à Romaria das Águas e da Terra, todos os presentes se comprometeram a se fazer presentes e consolidar a atividade como um espaço de fé e de luta contra o atual destino atual das águas do canal do sertão. O manifesto do comitê popular será lançando na romaria no dia 26 de setembro.

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